domingo, 13 de dezembro de 2015

Tollan.



Há muitos anos atrás, todas as manhãs, lá em casa, o meu pai sintonizava um pequeno transístor na Antena 1, para ouvirmos as notícias. Na correria matinal dos banhos, das roupas, dos “hoje não quero ir à escola” e do “bebe o leite que estamos atrasados”, tínhamos aquela banda sonora de notícias. A Guerra das Malvinas, o governo de Sá Carneiro, a Olivia Newton-John pelo meio “ Let´s get physical, physicaaal”, a queda do avião de Sá Carneiro em Camarate, a Guerra Irão-Iraque, o governo de Pinto Balsemão, o atentado ao Papa João Paulo II, “It´s the eye of the tiger, It’s the trill of the fight” dos Survivor, o trânsito entupido na Calçada de Carriche, o governo de Mário Soares, o preço da gasolina e as piadas sobre o Tollan.

No dia 16 de Fevereiro de 1980, um cargueiro sueco de nome Barranduna, colide no Tejo, ali na zona do Cais do Tabaco, com o porta-contentores inglês MV Tollan. Tal como rezam algumas lendas da nossa história, foi numa manhã de nevoeiro. Cerrado e húmido. Os barcos embateram, quatro pessoas morreram e a paisagem lisboeta mudou. Passados dois dias, o Tollan deu uma volta de 180 graus e foi encalhar com o casco vermelho virado para cima mesmo em frente ao Terreiro do Paço.

E ali ficou. Durante três anos empreenderam-se tentativas de tirar dali o barco, mas ele, afeiçoado a Lisboa e tendo encontrado no Tejo um bom companheiro de boémia, recusou-se a sair. O Tollan virou monumento nacional e de visita turística obrigatória para quem vinha à capital.

Aos domingos os casais namoravam em frente ao rio com vista para o Tollan. Os turistas fotografavam as gaivotas pousadas no casco do barco. Conjecturaram-se histórias sobre o que estaria escondido na barriga da embarcação. Máquinas de escrever, chá verde, alfaias agrícolas ou cadáveres que não interessava descobrir. Consta que nunca ninguém reclamou a carga. Inventaram-se anedotas. Na rádio ouvia-se todas as manhãs “Alô. Alô. Gaivotas, Tollan”.

O Tollan foi acolhido com carinho pelo coração piegas do alfacinha. Nesta coisa tão portuguesa de se afeiçoar até às coisas feias e as tornar poéticas. O Tollan passou a ser português. De tal maneira que se deu o seu nome a bares e restaurantes e outros estabelecimentos comerciais. De cada vez que o tentavam desencalhar, o português torcia para que corresse mal. No conturbado período político que se vivia, dizia-se que o Tollan estava direito, o país é que estava de pernas para o ar.

Depois, num dia de Dezembro de 1983, após tombar uma grua em mais um esforço para arrancar o Tollan do Tejo, lá se conseguiu tal feito. E o Tejo perdeu o seu mais fiel compincha.


E eu, que vim pela primeira vez a Lisboa já depois de terem tirado o Tollan do Tejo, quando passo no Cais das Colunas penso nele. Naquele nome que povoa as recordações das minhas manhãs de infância. Daquela vontade de ir a Lisboa e o ir espreitar. Sinto saudades de uma coisa que nunca vi? Pois claro que sim. Como qualquer bom lisboeta tenho o Tollan encalhado na minha memória.

domingo, 29 de novembro de 2015

Restauradores.


No extremo sul da Avenida da Liberdade fica a Praça dos Restauradores.
Dizem os especialistas que ali começou a expansão para norte da cidade de Lisboa.

Aquele obelisco lá bem no meio simboliza o dia em que deixámos de ser espanhóis. Por causa do D. Sebastião ter a mania das grandezas e julgar que era enviado por Deus decidiu trazer para seus súbditos todos os habitantes do agora chamado Magreb e fazer a Palestina ajoelhar-se a seus pés. Juntou um exército e partiu à conquista. Porém, quando chegou a Alcácer Quibir, apanhou nevoeiro e perdeu-se. Nunca mais se viu. Deixando para trás um Portugal órfão e com um novo vinco na alma: o sebastianismo. De tal forma que ainda hoje esperamos pelo regresso messiânico de D. Sebastião, montado no seu cavalo para salvar a pátria de todas as crises e dores. Ainda bem que temos esperado sentados.

Portanto, depois de Alcácer Quibir, Portugal nunca mais foi o mesmo. D. Sebastião não deixou descendentes e os espanhóis esfregaram as mãos de contentamento. Filipe II de Espanha açambarcou Portugal. Durante 60 anos fomos governados pela Dinastia Filipina. Nunca baixando verdadeiramente os braços, no dia 1 de Dezembro de 1640, quarenta patriotas foram até ao Paço da Ribeira e deitaram pela janela os representantes do rei espanhol. Restaurando o reino de Portugal e dando início à Dinastia de Bragança.

Foi mais ou menos assim. Mais ou menos.

No dia 28 de Abril de 1886, foi inaugurado ao fundo da Avenida de Liberdade o Monumento aos Restauradores da Pátria. O tal obelisco. Custou 45 Contos de Réis e está ladeado pela Glória, com a palma numa mão e a coroa na outra, e pela Liberdade.

A praça que o circunda está inundada de história. Por ali se comemora desde então no primeiro de Dezembro a Restauração. Foi ali também que, depois de implantada a República, se hasteou pela primeira vez a bandeira nacional republicana, no primeiro de Dezembro de 1910.

Para mim a Praça dos Restauradores cheira a manifestações do 25 de Abril que terminam no Pirata para beber um Perna de Pau. Ou um Pirata. A descidas do elevador da Glória em dias de sol com a praça aberta ao céu lá em baixo à espera. A filas da Loja do Cidadão ao nascer do dia naquele edifício que foi antes o Cinema Eden. Aquele mesmo edifício que é hoje o VIP Executive Éden Aparthotel e que foi na primeira metade do século passado um dos locais mais glamorosos e concorridos da capital. Aquele mesmo edifício onde as Spice Girls vieram actuar em 1996 para inaugurar a Virgin Megastore que fechou 4 anos depois. A Praça dos Restauradores soa a noites de concertos no Coliseu, a luas gordas e silenciosas sobre o Palácio Foz e a corridas para apanhar o autocarro.

A Praça dos Restauradores tem o chão rendilhado da calçada portuguesa. Tem a história de Portugal firmada no nome. Tinha um dia feriado até 2012. Feriado que comemoraríamos esta terça-feira. Mas não faz mal. As grandes datas não se esquecem. As grandes praças não se deixam abater. O obelisco lá continua erguido em direcção ao céu como um farol a assinalar terra. Terra de Portugal.



domingo, 8 de novembro de 2015

Os lençóis da Rita.



A Rita é uma menina bonita que aos 18 anos decidiu estender os seus lençóis por esta Lisboa fora. Mas como não tinha estendal, andou a pedir estendais emprestados e, por voltas da vida, acabou por estender um lençol na varanda cá de casa.

A Rita quer é dar nas vistas. Dar nas vistas dos lisboetas que passam pelas ruas e fazê-los pensar e repensar o desaire de ser refugiado. É que a Rita aqui há tempos leu a notícia do desvio das rotas dos comboios dos refugiados na Hungria e percebeu um reflexo de uniformização dos seres humanos em números. A partir daí observou o drama dos refugiados com compaixão. Para ela, tal como a história relata, repete-se a desumanização, a incapacidade empática e a despersonalização da vítima.

A Rita quer desconstruir as imagens simbólicas e as opiniões extremistas que circulam pelos meios de comunicação e nas redes socias em particular. Dar individualidade aos protagonistas desta tragédia. Pessoalizar. Ser-humano a ser humano. Dar a oportunidade a cada um de questionar a sua posição pela emoção. Cara a cara. Caminhar nos sapatos do outro. Olhos nos olhos. Alcançar a dor de sair da sua casa, desterrado, despojado, sem rumo, sem sentido, sem querer. Olhos nos olhos.

A Rita desenhou-lhes os rostos. Os olhos expressivos de medo e incerteza. As caras cansadas de tristeza e dor. O esforço do caminho nos lábios tristes e curvados. A solidão arqueada nas sobrancelhas.

A Rita quis fundir estes rostos com a singularidade da paisagem urbana de Lisboa. Então desenhou a sua visão em lençóis. Há lá imagem mais alfacinha do que um lençol pendurado no estendal? Pôs um anúncio no Facebook e logo angariou voluntários para a sua demanda. Uns porque acharam os lençóis bonitos, outros porque queriam ser uma coisa boa na vida dos outros, porque sim, porque são solidários e empáticos.

Por Lisboa fora há lençóis pendurados nas janelas e nas varandas. No Largo da Trindade, na Rua do Benformoso, no Largo da Achada, na Rua da Graça, no Mercado de Sapadores e outro aqui na rua. Na varanda do meu quarto. Bem preso com muitas molas. São lençóis resistentes. Sobrevivem à chuva e ao vento. O mau tempo não os deita abaixo. Uma semelhança de resistência com os rostos que os ilustram.

A Rita continua resiliente à procura de estendais que queiram pendurar os seus lençóis por três semanas. De casa alfacinha em casa alfacinha eles lá andam à procura de novos sítios para chamarem seus.

Este que vejo agora, pode ficar o tempo que quiser. Acarinho-o porque sei que passa as noites ao frio e não está em sua casa. Está na minha varanda como numa pátria emprestada. E pode ficar até a Rita o vir buscar. Até lá não o tiro. Nem que as minhas vizinhas me gritem. “Vizinha, apanhe o lençol que já secou.”


https://wallynafronteira.squarespace.com/




domingo, 1 de novembro de 2015

Ao longe.



Há dias que aquela frase do Fernão Capelo Gaivota que diz que “não há longe nem distância” me anda a soar na cabeça.
É uma frase bonita. Aberta a oportunidades e a significados esperançosos e carregados de emoções. Um chocolate quente para quem tem a alma em temperaturas negativas.

Contudo, quando estamos quase todo o ano longe das pessoas com quem passamos o Natal, esta frase fecha-se em palavras bonitas que não nos dizem nada. É que a vida anda e, mesmo que a distância seja encurtada pela tecnologia, o tempo não pára. Passam os anos e nós não estamos lá.

Sou uma alfacinha da candonga e até passo bem por um produto de marca registada. Esta Lisboa faz parte dos meus tecidos e dos meus pespontos. Mas, quando chega a hora da saudade, o único fado que canto é o Fado Beirão.

O lisboeta genuíno não sabe a sorte que tem. Quando chegam os domingos preguiçosos e vai almoçar aos pais. Quando leva a sopinha para a semana na marmita que a mãe preparou. Quando precisa de coser a bainha das calças, tirar uma nódoa da camisola ou só de um olhar amoroso e sem condições e passa em casa dos pais. Ou dos avós. Ou da irmã.

É que isto de manter uma relação à distância com a família requer uma boa logística. Um telemóvel com boa definição de som para que os Parabéns soem tão desafinados como se estivéssemos lá. Uma boa câmara para filmar para mostrar as mudanças de móveis que fiz cá em casa. Uma gestão razoável da ansiedade para esperar pelo telefonema depois da consulta do médico em que se foram mostrar uns exames com valores que assustam. Marcar férias para o dia em que está previsto nascer a sobrinha. Vê-la crescer pelo Skype e conter a lágrima quando ela nos manda o primeiro beijinho pelo telefone.

Depois há os dias negros. Os dias em que a distância se transforma em muitos longes. Quando toca o telefone para dizer que alguém lá morreu. E nós, que íamos lá no próximo fim-de-semana, não queremos aceitar que a morte chegou primeiro. Não queremos não estar lá. E por muitos braços lisboetas que nos abracem cá, não há consolo que nos aqueça. Fazemo-nos ao caminho para casa, agradecemos todos os momentos em que estivemos lá e lamentamos todas as nossas distâncias. Cada fatia de bolo de aniversário que não comemos, cada ida ao médico em que não estivemos e cada domingo de sol que não passeámos.

Por isso, não me vou deixar ir na cantiga do “não há longe nem distância”. Por agora não acredito. Fico cá a contar quilómetros e a medir espaços de tempo que não consegui preencher.

domingo, 11 de outubro de 2015

O lado feio.



Será Lisboa perfeita? Tem boa luz, bom tempo, belas vistas, imenso rio, belos prédios, grandiosos monumentos, deliciosas iguarias e agradáveis gentes. Tudo em jeito de postal bonito para enviar com vaidade a quem por cá não mora.
Porém, se olharmos para a cidade sem o filtro do amor, vemos fotografias que não dão para fazer postais.

Caminhando pelas ruas os nossos olhos encontram substâncias, seres e objectos abjectos que são também de Lisboa. Lisboa não é só catita. É suja, fedorenta e também cruel.

Os caixotes do lixo transbordados, queimados ou tombados são um clássico das tardes de domingo. A calçada suja, as ratazanas mortas e as baratas a passear nas paredes de alguns cafés. Os parquímetros avariados, os carros bloqueados, as passadeiras apagadas e os buracos na estrada.  

As pessoas que dormem na rua.

Os prédios arruinados, os telhados destelhados e os azulejos arrancados. Os prédios abandonados, as paredes com humidade, os vidros das janelas partidos. Os prédios mal pensados, os monos atravancados como caixotes ferindo a paisagem pombalina.

As pessoas que dormem na rua.

Os maus-cheiros das ruas sujas. O hálito do rio em dias maus, os cantos do Bairro Alto com pivete a alívios de bexiga nocturnos, o bafo dos carros na Avenida da Liberdade.

As pessoas que dormem na rua.

As pessoas que dormem na rua, embrulhadas em cobertores velhos e caixotes. As pessoas que dormem debaixo de viadutos e arcadas e a quem os nossos olhares se habituaram. Abandonadas. Para quem Lisboa é madrasta. Pessoas da fronteira mais afastada da cidade.

A cidade grande tem destas vistas que não se mostram nos anúncios. Não é só fados e miradouros. Não é só solar e assombrosa. A capital tem defeitos e maldades, é viciosa e desnaturada. Por outro lado são estas imperfeições que lhe dão humanidade e verdade.  Lisboa não vive no Olimpo. Lisboa é da vida real.  



domingo, 27 de setembro de 2015

Sozinho em casa.


Há nos prédios pombalinos um tipo de capa solitária que os envolve do telhado ao rés-do-chão e se lhes entranha nas traves de madeira, corroendo-as mais do que o caruncho. Uma solidão contagiosa que entra nas casas e se pega aos seus moradores.
Há nestes prédios almas que penam por sozinhas. A quem ninguém visita. A quem ninguém telefona. A quem ninguém convida para a ceia do Natal. Pessoas que esperam desde cedo pelo toque do carteiro para se sentirem solicitadas.

O meu prédio pombalino não é excepção. Aqui no andar por cima do meu, vive o Sr. José. Solitário militante e medicado, que passa os dias entre a sua casa, o café para beber a bica e o supermercado.
Sempre elegante, de calças vincadas e sapatos engraxados, ao domingo veste o fato e mete um lenço ao pescoço. Não sorri. Fuma incontáveis cigarros que deixam um cheiro agarrado ao corrimão das escadas, assinalando a sua passagem. Refere-se à ida à tropa como a descida aos infernos. Não tem amigos. Não se dá com a família. Toma comprimidos para dormir. Mesmo de dia. Tem talvez uns 55 anos de solidão.

Quando me mudei para cá tinha algum medo dele. Aquele senhor sisudo que me dava os bons-dias com o rosto virado para dentro, parecia-me muito sinistro.
Um dia, passava ele por baixo da minha varanda enquanto eu estendia a roupa e deixei-lhe cair uma mola bem no centro da cabeça. “Estou desgraçada.”, pensei. Mas logo o senhor apanhou a mola, subiu as escadas e bateu-me à porta para a entregar.

Outro dia bateu-me à porta para perguntar se o meu telefone estava a funcionar. Como eu disse que sim, pediu-me para o deixar ligar para os TLP para virem reparar a avaria. E lá ficou o Sr. José sentado no meu sofá a ouvir a gravação da PT durante meia-hora. Passados uns tempos estava-me a pedir ajuda para preencher o impresso do IRS. O que eu fiz.

Como agradecimento por estas ajudas, toca-me à campainha mal me ouve chegar do trabalho e oferece-me pacotes de bolacha-maria. Houve até um dia que vieram acompanhadas de um litro de leite “para a menina desembuchar das bolachas”.

Sempre que me encontra na rua lança-me uma frase gentil, quase um piropo, mas à moda antiga.
 “A vizinha é uma flor que faz o dia mais bonito.”.
 “A vizinha anda sempre a passear elegância pela rua.”
E eu sorrio e agradeço.
Outras vezes segura-me a porta para eu entrar no prédio. Ou dá-me as boas-noites da varanda se me vê a estender a roupa. Sempre contido. Sempre educado.

Agora entrámos numa nova fase. Oferece-me canecas com desenhos natalícios. A primeira bateu-me à porta em Agosto. “A vizinha é tão simpática comigo e olhe, gosto de si. Pegue lá.”. E vai-se embora logo de seguida. E eu quase não tenho tempo para agradecer.

Tudo isto me deixa com o coração doce. Tudo isto me deixa com o coração amargo. Como é que alguém pode ser tão só que uma mera ajuda de boa vizinhança faz sentir tanta gratidão? E eu que não gosto de bolachas nem de leite, fico com vontade de o convidar para entrar e comer comigo. Mas ele desaparece logo pelas escadas acima.
E o que é que eu faço com canecas de Natal em pleno mês de Agosto?


Guardo-as no armário, como se fossem da Vista Alegre. Quando chegarem dias tristes, beberei nelas um chá que me aquecerá a alma como se fosse Verão.

domingo, 20 de setembro de 2015

Os detalhes.


Lisboa é tão linda, tão linda que vêm gentes de terras longínquas com nomes estranhos e gentes de mais perto só para a mirar. São multidões de olhos indiscretos, ouvidos afinados e palatos limpinhos prontas para conhecer a cidade na sua esplêndida existência. Chamam-se turistas e andam por aí a absorver e a observar cada cantinho da capital que já não é só nossa. Mas que sabe tão bem partilhar. E mostrar. E exibir altivos e vaidosos.

Chegam e dizem coisas. Emitem opiniões e ditam pareceres que deixam o alfacinha boquiaberto e desperto como se a sua velha cidade fosse, afinal, maravilhosa novidade.

Chegam e dizem coisas. Frases estranhas e inocentes. Algumas absurdas, mas sempre a soar a elogio. Sempre com um sorriso que deixa um sorriso a quem escuta.

A saber:

“Lisboa parece Nova Iorque. As ambulâncias soam como nos filmes americanos. Ou então São Francisco, por causa da ponte.”

“ Os portugueses passam a vida a declamar poesia. A língua soa tão bem que parece que rima.”

“ As casas em Lisboa são estranhas. Têm a casa-de-banho ao pé da cozinha.”

“Aqueles bolos que há em todo o lado com peixe e batatas são uma das coisas mais deliciosas que eu já comi.”

“Estou a pensar mudar-me para cá só por causa do marisco.”

“Vim a Lisboa para ver o Cristo-Rei. Faz-me sentir como se estivesse no Rio de Janeiro e gastei menos dinheiro na viagem”

“ Acho que as casas deveriam ter redes mosquiteiras nas janelas. No meu país todas têm.”

“As vossas janelas são pequenas e vocês ainda tapam a luz com cortinas.”

“Os táxis daqui são os mais românticos do mundo.”

“ A comida é barata, as casas são baratas, o sol é de graça, não sei de que é que se queixam.”


Até lhes podíamos explicar de que é que nos queixamos. Mas não vale a pena. É deixá-los ir com esta sensação boa da cidade e agradecer-lhes por trazerem detalhes novos aos nossos olhos habituados.

domingo, 21 de junho de 2015

António.









Meu querido António,

"Tu estás sempre ausente e não te conseguem alcançar."


Quando se nasce estrela não há nada que o contrarie. Nem mesmo a morte. E é por isso que tu és uma estrela que brilha em todas as cores da paleta cromática. E é por isso que sempre que venho aqui tentar escrever sobre ti, me sinto tão travada. Como escrever sobre alguém cuja genialidade é tão cristalina, cuja obra é tão transparente? Como escrever sobre o cantor que expôs a sua alma sem embaraços nas letras, na voz e nas músicas? Como?


Parece-me inglório tentar registar em poucas linhas. Parece-me até desnecessário. Tu és as tuas canções. Não encontro dentro de mim melhor explicação para esta dificuldade. Cada vez que toco no teclado penso: talvez devesse copiar uma qualquer letra dele e pronto. Depois dizer:

Este é o António Variações, de todas as personalidades afamadas deste país, a de maior variedade de cores e de sons. A mais autêntica e sofisticada. Um campesino urbano. Uma portugalidade sem vergonhas de se mostrar e amodernar. Incontornável. Algures entre Braga e Nova Iorque.


Vou então evitar factos históricos e citações e falar-te de mim e de ti. Daquele dia em que te vi de pijama no Passeio dos Alegres do Júlio Isidro. Eu tinha seis anos e fiquei fascinada. A canção chamava-se “Toma o comprimido”, mas isso eu só soube anos mais tarde. O que eu soube naquela hora foi que gostava daquele tipo barbudo de voz encantadoramente estridente e que dançava da forma mais esquisita que eu já tinha visto.


Quando dei por mim andava no carro com o meu pai a pedir para ele sintonizar o rádio na música daquele rapaz que cantava aquela do “estou bem onde não estou”.
Uma aparição televisiva tua era um pára-tudo-que-eu-quero-ouvir. Que eu me lembre, fui tua fã desde o primeiro dia em que te vi. Foste a minha primeira estrela.


Por isso, quando morreste daquela doença estranha de que ninguém ainda falava e que os meus pais ainda não sabiam explicar muito bem, pelo menos a uma criança de 8 anos, partiste-me o coração. E porque é que ele morreu se cantava tão bem? E porque é que queimaram as coisas dele? Como se chamava a doença que ele tinha?


Tu dizes que todos nós temos a Amália na voz, mas na minha voz não é a Amália que canta. És tu. Tu foste a minha primeira discografia completa. Um presente de aniversário dos meus pais em formato LP que me acompanhou por toda a adolescência e que está ali arrumada e estimada no móvel. Ia crescendo contigo e descobrindo novas camadas nas tuas letras. Novos tons na tua voz. Consolos cúmplices nas emoções que fui conhecendo.


E o que me chateia ouvir dizer que se tu não tivesses morrido tinhas sido uma grande cena. Tu és uma grande cena. Tu és a cena e o cenário. Tu criaste a tua obra completa.
E o que me chateia ouvir dizer que tu eras um grande maluco. Tu que tinhas uma cabeça sã e sabias bem o que querias. Querias encontrar a tua forma e o teu lugar.


Por estas coisas, meu querido António, já não te sintonizo no carro do meu pai. Levo antes as tuas músicas na cabeça ou na pen nas viagens que faço na vida. Levo-te nos phones por esta Lisboa onde te tornaste um astro e onde morreste na noite de 13 de Junho de 1984. A noite do outro António da cidade.

domingo, 7 de junho de 2015

Carta aberta.




Sr. Carlos, Sr. Domingos e todos os outros senhores que todos os dias me querem comprar o carro,


Espero que esta que vos remeto vos vá encontrar bem.
Escrevo-vos para vos agradecer o interesse demonstrado na aquisição da minha viatura. O esmero com que colocam diariamente o vosso panfleto no meu limpa-pára-brisas comove-me.  Admiro a resiliência do ser humano e gosto sempre de a encorajar, por isso me é tão difícil redigir esta carta. É que pressinto que aquilo que vos vou dizer poderá partir-vos o coração e desmotivar a vossa caminhada rumo à aquisição de todos os automóveis de Lisboa. No entanto, o que tem que ser dito tem que ser dito. Cá vai:


EU NÃO VENDO.


Mas não pensem que esta missiva é de despeito. É sempre um prazer diário ir tirar o panfleto do vidro do carro. Principalmente naqueles dias em que chove muito e, já ilegível e empapado, me fica agarrado às pontas dos dedos. Ou quando me esqueço e passado um dia ele está colado e difícil de retirar.
A verdade é que, às vezes até dão jeito. Quando, por falta de caixote do lixo onde os depositar, os acumulo no porta-luvas. Tê-los ali à mão de semear se precisar de apontar alguma coisa é muito bom. No entanto, o que tem que ser dito tem que ser dito. Cá vai:


NÃO PONHAM MAIS PORQUE EU NÃO VENDO.


E sensibiliza-me que vocês estejam dispostos a ligar-me se eu vos der um toque. Que vão ao local buscar com reboque e assinem um termo de responsabilidade no acto de compra. Que paguem na hora e tratem de toda a documentação. E fico com uma lágrima a querer verter-se sempre que leio a frase motivacional que o Sr. Domingos lavra entre parênteses: Feliz é o homem que confia em Deus. E eu fico logo mais confiante e penso que no dia seguinte não vou ter lá o vosso papelinho. Mas não tenho fé suficiente. No dia seguinte lá está ele à minha espera. Houve um dia até que tinha dois. Um de cada lado do pára-brisas. Enternecedor. No entanto, o que tem que ser dito tem que ser dito. Cá vai:


NÃO PONHAM MAIS PORQUE EU NÃO VENDO.


Desistam. A compra do meu carro foi ponderada. Pensei muito, fiz contas, pesquisei e analisei durante cerca de meia-hora. E correu muito bem. Estou mesmo satisfeita. Não avaria, a Câmara Municipal de Lisboa ainda não o tentou recolher e tenho pago a prestação todos os meses. Por isso, é com pesar que vos informo que não contem comigo para a vossa demanda para comprar todos os popós da capital. Peguem nos vossos folhetos e enfiem-nos noutro vidro porque EU NÃO VENDO.


Cumprimentos,


Couve-Flor.

domingo, 31 de maio de 2015

Há caracóis.




Chegaram os caracóis. As portas dos restaurantes e tascas vão exibindo sacos de rede amarelos cheios do bicharoco pendurados à entrada. São letreiros vivos do petisco mais aguardado do tempo quente.


Na minha Beira Alta a malta não acha piada nenhuma. Fala-se em caracóis e as línguas soltam-se para fora da boca em sinal de agonia. Segue-se um sonoro “Que nojo.” e um abanar de cabeça de incompreensão. Quando telefono à minha mãe e digo que vou comer caracóis, nota-se sempre no “Que porcaria” que deixa escapar, um tom de voz conformado seguido de um suspiro à andamos a criar uma filha para acabar nisto.


Mas em Lisboa não. O caracol caiu no gosto do lisboeta. O Verão da capital não começa antes do molusco cá chegar. E se eles se atrasam, estica-se o Inverno mais um bocadinho. É impensável deixar o calor entrar na cidade sem que em cada montra das casas de comes e bebes alfacinhas haja um anúncio simples e directo: há caracóis.


E é ver as travessas e os pires a chegarem às mesas das esplanadas. Com o aroma de orégãos e cebola não há alfacinha que não comece a salivar. E é ver as mesas cheias de cascas e guardanapos enrodilhados. E é ver as imperiais a chegarem e a esvaziarem-se em segundos. E é ver o pão torrado com manteiga a chegar quentinho e a ser devorado.


E é ver quem é que é esquisito e quem é que é corajoso. Os corajosos chupam o caracol directamente da concha. Os esquisitos puxam com um palito, às vezes fazem uma careta de náusea, mas comem na mesma. É que o sabor delicioso do caracol é diametralmente oposto ao seu aspecto.


A caracolada é sempre acompanhada com boa disposição. Nunca vi ninguém com ar pesaroso atacar um pires de caracóis. Os amigos juntam-se à volta do pitéu e só falam de assuntos divertidos. O caracol não é para coisas sérias. É para boas conversas regadas com cerveja e contentamento.

Chegaram os caracóis. É altura do tremoço e o amendoim descansarem. É altura de deixar o calor entrar nos nossos dias. Telefonar aos amigos e dizer: Vai uma caracolada?