domingo, 17 de novembro de 2013

Escadinhas Lisboetas.

Lisboa não são só colinas. Lisboa são escadas, escadinhas, escadarias e escadotes. São saltinhos nas ruelas. São corrimões envelhecidos.
Passos apressados nas ruas estreitas. Saltos altos que não cabem bem em todos os degraus desta vida errante que se faz na cidade.
Escadinhas com varandas e janelas, cheias de roupa a perfumar o ar. Já não é o Omo nem o sabão azul. Agora é cheiro de panos acabados de sair da máquina de lavar. E que difícil que é, tentar equilibrar o pé a olhar para o ar. A descer todos ajudam, mas a subir, só mesmo Santo Antoninho. Na Bica é mesmo a doer. E no Castelo, Deus nos dê ar para respirar antes de lá chegar.
Gosto das escadas dos prédios. De madeira ou pedra dura. Gosto quando as escadas cheiram bem. Quando por lá passou alguém com um balde de água que mata as bactérias e é cheirosa. Ou quando alguém saiu de casa perfumadinho pela manhã, deixando um rasto de mistura de essências, refinado ou não. Que bem que cheiram os lisboetas!
Ou as escadas de madeira amareladas por um pó que eu não sei o nome. Mas que mania esta. Mas que bela mania. São aquelas cores que Lisboa tem, mas que nem notamos.
Degrau a degrau, a algum lado se há-de chegar. À Baixa ou ao Largo da Graça. À Lapa. À socapa, sempre em sobe e desce. Sempre com pressa. Quanto mais depressa mais se perde o vagar.

domingo, 10 de novembro de 2013

Aldeia alfacinha.



Em Lisboa ninguém mora sozinho.
Quem vive numa rua estreita de um qualquer bairro pombalino sabe certamente ao que me refiro.
Aqui, no meu primeiro andar com varandim para o estendal da roupa e para a rua mora uma aldeia.
Vejamos.
Moram o Nuno e a Ana. Casal simpático, do primeiro andar do outro lado da rua, que, durante anos, tiveram uma televisão maior que a minha. No princípio a nossa relação passava por, daqui para ali, se espreitar os golos dos jogos de futebol cada vez que o pessoal saltava no sofá cá de casa, batia na ligação do cabo e, com o impulso, a minha televisão ficava temporariamente sem sinal. O Nuno e a Ana topavam tudo. E até sorriam de volta.
Outras vezes estendíamos a roupa ou fumávamos um cigarro ao mesmo tempo e o sorriso foi sendo inevitável. Hoje em dia bebemos copos no restaurante aqui de baixo.
O dono do restaurante aqui de baixo é o Marco. O Marco às vezes não desliga o exaustor barulhento que só se ouve lá em cima no 4º andar. Durante a noite vem o inglês do prédio ao lado tocar a todas as campainhas e dizer palavrões em Inglês. Pensa que é o ar condicionado de alguém deste edifício. E é difícil fazê-lo entender que não. Mesmo que o ameacemos que vamos chamar a polícia para lhe explicar.
No dia seguinte toda a rua sabe. A gorduchinha ali do 4º andar do nº 10 que tem um vozeirão daqueles que fazem estremecer os prédios, coloca-se na sua varanda-tribuna e conta em discurso cheio de dramatismo a toda a gente.
Um dia, quando eu estendia a roupa e ainda era nova cá na rua perguntou-me o nome, a idade, o preço da casa (a esta eu não respondi) e de onde é que eu era. Embalada, quase lhe disse o meu n.º de contribuinte. Passados dez minutos, sentei-me no sofá e ouvi em tom de altifalante: “Chama-se Couve-Flor, tem 34 anos e é da Beira!”.
Estava a contar tudo à velhota do 3º andar do outro lado, que dizem que é bruxa e a quem eu sorrio sempre, não vá o diabo segredar-lhe coisas más sobre mim ao ouvido.
No prédio ali da esquina vivem os velhotes mais queridos cá da rua, que vão de mão dada apanhar o autocarro. Quando os encontro na paragem cumprimentam-me sempre. Um dia perguntaram-me o nome e disseram-me que é sempre bom conhecer os vizinhos.
Se formos pela rua abaixo, encontramos o prédio do galego, que passa cá só metade do ano, a tasca do Sr. Alexandre, a barbearia do Sr. Vicente e a loja das chaves que está agora em obras.
Graças à varanda do meu vizinho do 4º andar aqui do prédio, ficámos a saber que há um rapaz que lá para as 3 da manhã vem fumar um cigarro à janela completamente nu, que vivem mais abaixo duas raparigas que têm três gatos gordos e que o casal de antipáticos do 2º andar do n.º 42, anda sempre muito bem vestido, mas tem uma casa muito feia.
Poderia prosseguir e entrar aqui no prédio. Mas isso é outro texto.
Adoro sair à rua e dizer dez vezes “Bom-dia” em menos de cinco minutos.  Há dias em que isso não é tão bom. Se acordo com a síndrome não-me-falem-que-posso-morder pode até ser perigoso. Mas que é muito melhor do que passar despercebida e não fazer parte do burburinho lisboeta, ai isso é.

domingo, 3 de novembro de 2013

Dias farruscos.



Lisboa é famosa pela luz. Há quem diga que é treta. Que são os olhos dos apaixonados por esta cidade fatal que vêem tonalidades de um azul prodigioso a levitar.
Para mim, confessa embeiçada pela capital, é verdade cientifica. A luz faz festinhas ao rio e ele, para a fazer feliz, reflecte-a em modo celestial.
Mas esta coisa da luminosidade lisboeta é uma grande conversa e eu hoje quero é falar dos dias farruscos.
Nestes dias, nada mexe mais comigo do que os bairros velhos a cheirar a mofo e com ruas estreitas e sombrias. Quando chove, espicaçam a depressão poética que guardo com tanto carinho nas profundezas de mim.
Há lá coisa mais fadista do que uma janela com um vidro rachado, a madeira com a tinta descascada e uma cortina amarelada por trás, sob um céu cinzento?
Há lá solidão mais comovente que uma mola da roupa esquecida na corda no ar pardo da manhã?
O vulgarmente conhecido como “dia feio” não o é tanto assim. Aceito que pode não nos transportar para uma felicidade arrebatadora, mas a melancolia também é da vida e, nestes dias, pode até ser uma coisa boa. Porque a culpa é do tempo. E da luz.
Todo o lisboeta deveria aproveitar o dia desbotado para elevar o olhar e se deixar esmagar pela beleza da cidade quando está triste. Em vez dos costumeiros queixumes de que está frio, de que há poças de água em todo o lado, de que estão encharcados e de consultarem a meteorologia para ver quando é que o sol volta, apreciem. Atentem à cidade entregue à sua dor. Desfeita em lágrimas que desaguam no rio baço, que, num consolo, corre mais veloz para lhe levar a inquietação para longe.

domingo, 27 de outubro de 2013

Dia 1.




Olá. Sou a Couve-Flor e vou escrever sobre esta Lisboa que eu amo aqui na Cultura Grátis.
Este é o texto do clichet. Não consigo evitar. Ando há demasiado tempo a pensar que vou escrever sobre Lisboa. Vou tentar despejar todos os lugares comuns neste e assim poupo-vos no futuro.
Faz este mês 20 anos que cá cheguei, vinda da minha Várzea, aldeia perdida no meio da Beira-Alta.
Eu, menina e moça.
 Lisboa, mulher sabida a quem eu não me atrevia a olhar nos olhos.
Vim para a Faculdade. Aprenderia a ser jornalista e voltaria a correr para a casa de meus pais.
O meu pai deu-me um roteiro das ruas e um mapa da cidade. Disse-me que andasse sempre perto de uma estação de metro para ter sempre forma de voltar ao Rossio e, assim, não me perdia.
E foi o que fiz.
De roteiro debaixo do braço e L123 na mala andei um ano de estação de metro em estação de metro a conhecer a cidade grande.
Sempre assustada e espantada vagueei pelas ruas, ruelas, escadinhas, becos e avenidas grandes.
Olhos ao alto. Varandinhas, janelas grandes e pequeninas. Roupa pendurada e flores a crescer nos telhados. Céu azul-rio.
Olhos no chão. Calçada portuguesa, beatas de cigarros aos montes, livros em segunda-mão, echarpes da moda e garrafas bebidas e abandonadas. Pés a passar por mim. A correr, a empurrar, a saltar em filas para o autocarro. Todos a saberem para onde iam. E eu?
Nariz no ar. Sardinha, detergente, rio, chichi de gato, castanha a assar, rio, carros, perfumes caros, perfumes baratos, suor, rio. Rio.
Fui-me acalmando. Lisboa, afinal era engraçada. Cidade de alta velocidade e novidade, modernaça e antiquada. Com a tradição numa esquina e o sonho futurista na outra.
E se tanto estranhei no princípio, agora está completamente entranhada em mim. Corre-me como um fado nas veias. Não me fui embora. Mas também não fiquei verdadeiramente.
Residem em mim duas almas. A do campo e a da metrópole. Talvez por isso continue a olhar para a capital com um olhar admirado e ainda me enterneça diariamente com a sua beleza.
E assim me tornei numa couve-flor. Já não sou a couve lombarda da sopa feita na panela de ferro na lareira da minha avó. Ainda não sou a alface verdinha que desce o Chiado com o toque cosmopolita debaixo do braço e a deixar no ar o último perfume francês.