domingo, 26 de abril de 2015

Os fortes.

São 00:30 do dia 27 de Abril de 1974. Os últimos presos políticos aprisionados no Forte de Caxias são libertados. Cá fora uma multidão de familiares, amigos e gente feliz com a revolução, que ainda estava a aprender a caminhar, aguarda-os com cravos e povos unidos que jamais serão vencidos em punho.


O Forte de D.Luís I, ou Forte de Caxias, começou a ser construído em 1879. Em 1916 tornou-se numa prisão para militares insubordinados, assaltantes de mercearias e grevistas.  Normalidades à luz do regime da época. Porém, as trevas do século XX português estavam a caminho e em 28 de Maio de 1926 era estabelecida a Ditadura Nacional, da qual seria filha a Constituição de 1933 que instituía o regime de hálito fascista, Estado Novo. De má memória.


Em Agosto de 1933, é criado um organismo designado por PVDE, Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, com a função de combater os crimes políticos e sociais e verificar a entrada, permanência e saída de estrangeiros do território nacional e a espionagem em colaboração com as polícias de outros países. Em 1945 é transformada em PIDE e, na Primavera Marcelista, em 1969, toma o nome mais adocicado de Direcção-Geral de Segurança. Tudo isto porque urgia induzir no povo português os brandos e bons costumes e o amor à pátria d’aquém e d’além mar para que andasse calmo e fácil de governar.


Mas há sempre uns indisciplinados que teimam em contestar quem tão bem lhes quer e se juntam em conspirações e reuniões a quem é necessário meter na linha. Para tal, em 1935, entram em Caxias os primeiros presos políticos.


Caxias tornou-se então numa prisão verdadeiramente moderna. Dizem as más-línguas que, inspirados nos métodos de tortura da CIA, ali se aplicavam procedimentos infalíveis para fazer com que os conspiradores revelassem com quem e como conspiravam contra o regime. Em salas à prova de som, com paredes e tecto brancos, iluminação artificial e forte e mobiliário com as arestas protegidas para impedir tentativas de suicídio, os presos eram levados a confessar. Privação de sono por dias e noites, recorrendo a barulhos metálicos, ameaças de morte dos familiares, canecas de água gelada quando estavam quase a sucumbir ao sono, espancamentos, eram algumas das técnicas usadas por guardas que se revezavam até à confissão pretendida. Confissão de crimes dos quais não havia quase nunca prova material. No fundo o desejado nem sequer era a reconhecimento do crime, mas sim a destruição da personalidade do interrogado. Provocar nele a revolta contra si mesmo e contra os seus valores e, ao mesmo tempo, fazer avisos ao povo. Apesar da polícia política negar sempre as suas barbaridades para o público, deixava passar à boca pequena detalhes de como procediam, para manter a população quietinha no seu lugar.


Por Caxias passaram só pessoas importantes. Pessoas fortes que se revoltaram e sofreram na pele e no espírito as correcções de um regime de má moral e maus costumes. Algumas mais destacadas na vida pública do que outras. Álvaro Cunhal, Francisco Miguel Duarte, Domingos Abrantes, António Joaquim Gervásio, Francisco Louçã, Arnaldo de Matos ou Zeca Afonso.



Na noite de 26 para 27 de Abril de 1974, depois de várias indecisões sobre quem deveria ou não ser solto, acabaram por sair todos em liberdade. Alguns assustados ainda por não saberem o que se passava, mas todos com os lábios em sorriso. Nas imagens de arquivo da RTP distinguem-se algumas caras que se tornaram nossas familiares. Muitas com bigodes farfalhudos que foram diminuindo ou desapareceram. Dali em diante, tudo foi diferente. Faz agora 41 anos.

domingo, 12 de abril de 2015

Olhó passarinho!








Hoje de manhã desci as escadas do meu prédio e, quando abri a porta da rua, dei de caras com uma máquina fotográfica com um turista acoplado. Fiz o meu melhor sorriso para o passarinho e segui para o meu destino.

Na minha mente a pergunta levitava: o que tem de fotografável a porta do meu prédio? E depois percebi. Estes turistas estão tão apaixonados por Lisboa, que acham todos os seus detalhes adoráveis. Até uma porta verde, feia e um pouco suja, sem batente e com um puxador muito normal, pode ser encantadora aos olhos de um turista embevecido.

Turista que é turista fotografa sem parar. Turista que é turista fotografa até sem ver. Leva Lisboa dentro da máquina e, quando chegar a casa, vê tudo com mais calma. Porém, se prestarmos atenção aos alvos dos seus disparos vamos descobrir novas Lisboas dentro desta Lisboa que afirmamos a pés juntos conhecer como as palmas das nossas mãos.

Para além do postal tradicional do Eléctrico 28 a passar nas Escolas Gerais, do Castelo ou da Torre de Belém, eles vêem maravilhas nos feitios das pedras da calçada ou no vidro partido da janela de um prédio abandonado. A placa velha com o nome da rua, a manta coberta de bugigangas na Feira da Ladra, as ervas a crescerem nos telhados dos prédios, o contentor das obras apinhado de portas que nunca mais se voltam a abrir, nem a fechar, a parabólica agarrada à parede mesmo ao lado da varanda de ferro forjado, as montras de peixe fresco na Rua dos Correeiros, as montras de peixe seco na Rua do Arsenal.



E mesmo quando Lisboa acorda despenteada e com os olhos inchados, eles continuam suspirando e fotografando os azulejos partidos e sujos nos prédios que ameaçam tombar, o candeeiro torto no Jardim da Estrela, a poça de água que reflecte o prédio pombalino quando faz sol depois da chuva. E vão seguindo e bisbilhotando os vãos de escadas cujo cheiro a bafio quase se sente só de ver, a senhora que vigia a carne no assador ali numa rua de Alfama, a janela entreaberta de um rés-do-chão do Bairro Alto por onde se espreita o sofá com o naperon na cabeceira e a televisão com o jarrinho de flores de plástico em cima. O velhote a dormitar ao sol ou a criança a correr atrás das pombas.

Estes turistas são danados. Deixam-nos envergonhados com os assombros desta cidade que levam na bagagem e que nós não chegamos a ver. Deixam-nos invejosos por conhecerem uma cidade onde nós nunca vamos porque somos parte dela. Mas basta seguir as objectivas das suas máquinas fotográficas ou ver para onde aguçam a câmara dos seus telemóveis e logo encontraremos novidades de pasmar desta nossa velha desconhecida Lisboa.
 

domingo, 29 de março de 2015

Fado- Tomo I.



Ai este meu fado de fugir ao fado desde que comecei este blog.
Ai esta saudade do que ainda não escrevi quando olho para a folha em branco.
Para escrever sobre Lisboa é imperativo escrever sobre o fado. O fado é o sangue que corre nas veias da cidade. É o sentimento mais profundo e empedernido na alma de todo o alfacinha. É o coração desta cidade que transborda e se transforma em portugalidade. Ai que medo de escrever sobre ele.

Ai Madragoa.

Ai Mouraria.


Ai este meu fado de não saber por onde começar. Se pela Severa ou pela Amália. Se pelo Carlos do Carmo, se pelo Marceneiro. Se pela Moraria. Se pela Madragoa. E onde meter Alfama? Pela Rua da Palma ou pela Rua do Capelão? Faca na liga, ponta e mola, prostitutas, marialvas, faias, marinheiros, taberneiros, cavaleiros e toureiros. E a saudade?

Ai a saudade.
Onde é que eu meto a saudade?

Os destinos trágicos e a amargura. A felicidade evaporada e a alma afundada em aguardente. Os cigarros, a boémia, as vielas escuras, a vontade de Deus e a ansiedade. Um fadinho ou um faduncho. Nobre ou vadio. Começo pela Hermínia. Ou então pelos mais novos, pela Aldina, pela Ana Moura, pelo Moutinho, pela Gisela e pelo Camané.

Ai o Camané.
Como explicar a voz do Camané?

Vou pela sina. Pela cigana ou pela varina. Pela trança preta da menina. Pela viola ou pela guitarra. Pelo povo a lavar no rio. Pela voz que dói a cantar, pela janela das tabuinhas, pela luz de Lisboa, pelo barco negro. Pelo David Mourão Ferreira, pelo Ary, pela Natália, pelo Oulman ou pelo Carlos Paredes. E confesso às paredes que não me lembro de todos? E o destino?

Ai o destino.
O que é que eu faço ao destino?

Deixo-o vir. Deixo-o ditar-me as letras que hei-de escrever sobre o fado. Porque é fatalidade certeira que o fado primeiro sente-se e só depois de diz. E só depois se canta. E se quis o destino que eu não tivesse voz para ser fadista nem unhas para tocar guitarra, nesta coisa de escrever sobre o supremo fado, não me há-de trair. E eu hei-de explicar o fado tal como eu o oiço. Mas não é hoje. Hoje fico em silêncio e vou ali ouvir um fado.

domingo, 22 de março de 2015

Era uma vez.









Era uma vez um reino situado à beira de um rio. Os habitantes do reino eram serpentes e a sua rainha era um ser de extrema beleza chamado Ofiusa.

Ofiusa era meia serpente e meia mulher. Bela e sedutora, com voz de menina indefesa, mas má como as cobras. Quem se atrevesse a pôr o pé no seu território, ficaria para sempre seu prisioneiro. Por essa razão, os marinheiros mantinham-se sempre ao largo, traçando as suas rotas cuidadosamente por águas longe do reino das serpentes.

Calhou que Ulisses, nas suas aquáticas demandas, fosse aportar a tal lugar. E logo Ofiusa por ele se apaixonou e resgatou-o para seu amante. Prometeu-lhe o lugar de consorte. Desposá-lo-ia e enchê-lo-ia de glória e poder. Levou-o para o seu palácio no lugar mais alto do reino e banqueteou-o de ouro e pedrarias.

 Mas Ulisses tinha a sua Penélope à espera em Ítaca e não a trocaria por todas as riquezas do mundo. Resolveu fingir. Esperaria que a sua tripulação reestabelecesse as forças, encheria o porão do navio de mantimentos e zarpariam para nunca mais voltar.

Ofiusa viveu dias de felicidade. Tinha um homem bravo e garboso ao seu lado e um reino temido e temeroso. Que mais uma rainha pode desejar? Ulisses, prudente, tratou de a bem cuidar. Elogiava a sua formosura e mimava-a com desvelo.

Mas a sorte não se força e o dia chegou em que Ulisses conseguiu escapar. Quando Ofiusa acordou com os primeiros raios de sol, viu o lugar ao seu lado na cama vazio e teve um mau pressentimento. Correu para a janela e assistiu ao barco de Ulisses a desaparecer no horizonte.

Numa fúria cega Ofiusa estendeu os seus braços até ao rio invocando todas as suas forças. Cega de raiva, destruiu tudo à sua passagem. Serpenteou as terras, criando sulcos tão profundos que deles nasceram sete colinas. Mas ficou com os braços a boiarem sobre as águas, vendo o seu amado cada vez mais distante até desaparecer.

Depois disto, sofreu para o resto dos seus dias. Só e louca a vaguear pelos quartos do palácio. De tanta solidão magicou uma história de amor. Na sua cabeça, Ulisses continuava a seu lado. Juntos criavam um reino ainda mais poderoso e famoso. Davam-lhe o nome de Ulisseia.

Se esta história é certa não se sabe. Sabe-se que o nome do reino se estendeu pelos séculos. Sofreu as erosões das línguas dos povos que o invadiram.

Olissipo.
 Olissipona.
 Lisboa.

E se Ofiusa não viveu feliz para sempre com o seu Ulisses, deveu-se talvez ao facto de nesta narrativa ela ser a rainha má. Mas até as rainhas más fazem coisas boas. Deu-nos as colinas e este nome tão bonito e bom de dizer: Lisboa.