domingo, 11 de outubro de 2015

O lado feio.



Será Lisboa perfeita? Tem boa luz, bom tempo, belas vistas, imenso rio, belos prédios, grandiosos monumentos, deliciosas iguarias e agradáveis gentes. Tudo em jeito de postal bonito para enviar com vaidade a quem por cá não mora.
Porém, se olharmos para a cidade sem o filtro do amor, vemos fotografias que não dão para fazer postais.

Caminhando pelas ruas os nossos olhos encontram substâncias, seres e objectos abjectos que são também de Lisboa. Lisboa não é só catita. É suja, fedorenta e também cruel.

Os caixotes do lixo transbordados, queimados ou tombados são um clássico das tardes de domingo. A calçada suja, as ratazanas mortas e as baratas a passear nas paredes de alguns cafés. Os parquímetros avariados, os carros bloqueados, as passadeiras apagadas e os buracos na estrada.  

As pessoas que dormem na rua.

Os prédios arruinados, os telhados destelhados e os azulejos arrancados. Os prédios abandonados, as paredes com humidade, os vidros das janelas partidos. Os prédios mal pensados, os monos atravancados como caixotes ferindo a paisagem pombalina.

As pessoas que dormem na rua.

Os maus-cheiros das ruas sujas. O hálito do rio em dias maus, os cantos do Bairro Alto com pivete a alívios de bexiga nocturnos, o bafo dos carros na Avenida da Liberdade.

As pessoas que dormem na rua.

As pessoas que dormem na rua, embrulhadas em cobertores velhos e caixotes. As pessoas que dormem debaixo de viadutos e arcadas e a quem os nossos olhares se habituaram. Abandonadas. Para quem Lisboa é madrasta. Pessoas da fronteira mais afastada da cidade.

A cidade grande tem destas vistas que não se mostram nos anúncios. Não é só fados e miradouros. Não é só solar e assombrosa. A capital tem defeitos e maldades, é viciosa e desnaturada. Por outro lado são estas imperfeições que lhe dão humanidade e verdade.  Lisboa não vive no Olimpo. Lisboa é da vida real.  



domingo, 27 de setembro de 2015

Sozinho em casa.


Há nos prédios pombalinos um tipo de capa solitária que os envolve do telhado ao rés-do-chão e se lhes entranha nas traves de madeira, corroendo-as mais do que o caruncho. Uma solidão contagiosa que entra nas casas e se pega aos seus moradores.
Há nestes prédios almas que penam por sozinhas. A quem ninguém visita. A quem ninguém telefona. A quem ninguém convida para a ceia do Natal. Pessoas que esperam desde cedo pelo toque do carteiro para se sentirem solicitadas.

O meu prédio pombalino não é excepção. Aqui no andar por cima do meu, vive o Sr. José. Solitário militante e medicado, que passa os dias entre a sua casa, o café para beber a bica e o supermercado.
Sempre elegante, de calças vincadas e sapatos engraxados, ao domingo veste o fato e mete um lenço ao pescoço. Não sorri. Fuma incontáveis cigarros que deixam um cheiro agarrado ao corrimão das escadas, assinalando a sua passagem. Refere-se à ida à tropa como a descida aos infernos. Não tem amigos. Não se dá com a família. Toma comprimidos para dormir. Mesmo de dia. Tem talvez uns 55 anos de solidão.

Quando me mudei para cá tinha algum medo dele. Aquele senhor sisudo que me dava os bons-dias com o rosto virado para dentro, parecia-me muito sinistro.
Um dia, passava ele por baixo da minha varanda enquanto eu estendia a roupa e deixei-lhe cair uma mola bem no centro da cabeça. “Estou desgraçada.”, pensei. Mas logo o senhor apanhou a mola, subiu as escadas e bateu-me à porta para a entregar.

Outro dia bateu-me à porta para perguntar se o meu telefone estava a funcionar. Como eu disse que sim, pediu-me para o deixar ligar para os TLP para virem reparar a avaria. E lá ficou o Sr. José sentado no meu sofá a ouvir a gravação da PT durante meia-hora. Passados uns tempos estava-me a pedir ajuda para preencher o impresso do IRS. O que eu fiz.

Como agradecimento por estas ajudas, toca-me à campainha mal me ouve chegar do trabalho e oferece-me pacotes de bolacha-maria. Houve até um dia que vieram acompanhadas de um litro de leite “para a menina desembuchar das bolachas”.

Sempre que me encontra na rua lança-me uma frase gentil, quase um piropo, mas à moda antiga.
 “A vizinha é uma flor que faz o dia mais bonito.”.
 “A vizinha anda sempre a passear elegância pela rua.”
E eu sorrio e agradeço.
Outras vezes segura-me a porta para eu entrar no prédio. Ou dá-me as boas-noites da varanda se me vê a estender a roupa. Sempre contido. Sempre educado.

Agora entrámos numa nova fase. Oferece-me canecas com desenhos natalícios. A primeira bateu-me à porta em Agosto. “A vizinha é tão simpática comigo e olhe, gosto de si. Pegue lá.”. E vai-se embora logo de seguida. E eu quase não tenho tempo para agradecer.

Tudo isto me deixa com o coração doce. Tudo isto me deixa com o coração amargo. Como é que alguém pode ser tão só que uma mera ajuda de boa vizinhança faz sentir tanta gratidão? E eu que não gosto de bolachas nem de leite, fico com vontade de o convidar para entrar e comer comigo. Mas ele desaparece logo pelas escadas acima.
E o que é que eu faço com canecas de Natal em pleno mês de Agosto?


Guardo-as no armário, como se fossem da Vista Alegre. Quando chegarem dias tristes, beberei nelas um chá que me aquecerá a alma como se fosse Verão.

domingo, 20 de setembro de 2015

Os detalhes.


Lisboa é tão linda, tão linda que vêm gentes de terras longínquas com nomes estranhos e gentes de mais perto só para a mirar. São multidões de olhos indiscretos, ouvidos afinados e palatos limpinhos prontas para conhecer a cidade na sua esplêndida existência. Chamam-se turistas e andam por aí a absorver e a observar cada cantinho da capital que já não é só nossa. Mas que sabe tão bem partilhar. E mostrar. E exibir altivos e vaidosos.

Chegam e dizem coisas. Emitem opiniões e ditam pareceres que deixam o alfacinha boquiaberto e desperto como se a sua velha cidade fosse, afinal, maravilhosa novidade.

Chegam e dizem coisas. Frases estranhas e inocentes. Algumas absurdas, mas sempre a soar a elogio. Sempre com um sorriso que deixa um sorriso a quem escuta.

A saber:

“Lisboa parece Nova Iorque. As ambulâncias soam como nos filmes americanos. Ou então São Francisco, por causa da ponte.”

“ Os portugueses passam a vida a declamar poesia. A língua soa tão bem que parece que rima.”

“ As casas em Lisboa são estranhas. Têm a casa-de-banho ao pé da cozinha.”

“Aqueles bolos que há em todo o lado com peixe e batatas são uma das coisas mais deliciosas que eu já comi.”

“Estou a pensar mudar-me para cá só por causa do marisco.”

“Vim a Lisboa para ver o Cristo-Rei. Faz-me sentir como se estivesse no Rio de Janeiro e gastei menos dinheiro na viagem”

“ Acho que as casas deveriam ter redes mosquiteiras nas janelas. No meu país todas têm.”

“As vossas janelas são pequenas e vocês ainda tapam a luz com cortinas.”

“Os táxis daqui são os mais românticos do mundo.”

“ A comida é barata, as casas são baratas, o sol é de graça, não sei de que é que se queixam.”


Até lhes podíamos explicar de que é que nos queixamos. Mas não vale a pena. É deixá-los ir com esta sensação boa da cidade e agradecer-lhes por trazerem detalhes novos aos nossos olhos habituados.

domingo, 21 de junho de 2015

António.









Meu querido António,

"Tu estás sempre ausente e não te conseguem alcançar."


Quando se nasce estrela não há nada que o contrarie. Nem mesmo a morte. E é por isso que tu és uma estrela que brilha em todas as cores da paleta cromática. E é por isso que sempre que venho aqui tentar escrever sobre ti, me sinto tão travada. Como escrever sobre alguém cuja genialidade é tão cristalina, cuja obra é tão transparente? Como escrever sobre o cantor que expôs a sua alma sem embaraços nas letras, na voz e nas músicas? Como?


Parece-me inglório tentar registar em poucas linhas. Parece-me até desnecessário. Tu és as tuas canções. Não encontro dentro de mim melhor explicação para esta dificuldade. Cada vez que toco no teclado penso: talvez devesse copiar uma qualquer letra dele e pronto. Depois dizer:

Este é o António Variações, de todas as personalidades afamadas deste país, a de maior variedade de cores e de sons. A mais autêntica e sofisticada. Um campesino urbano. Uma portugalidade sem vergonhas de se mostrar e amodernar. Incontornável. Algures entre Braga e Nova Iorque.


Vou então evitar factos históricos e citações e falar-te de mim e de ti. Daquele dia em que te vi de pijama no Passeio dos Alegres do Júlio Isidro. Eu tinha seis anos e fiquei fascinada. A canção chamava-se “Toma o comprimido”, mas isso eu só soube anos mais tarde. O que eu soube naquela hora foi que gostava daquele tipo barbudo de voz encantadoramente estridente e que dançava da forma mais esquisita que eu já tinha visto.


Quando dei por mim andava no carro com o meu pai a pedir para ele sintonizar o rádio na música daquele rapaz que cantava aquela do “estou bem onde não estou”.
Uma aparição televisiva tua era um pára-tudo-que-eu-quero-ouvir. Que eu me lembre, fui tua fã desde o primeiro dia em que te vi. Foste a minha primeira estrela.


Por isso, quando morreste daquela doença estranha de que ninguém ainda falava e que os meus pais ainda não sabiam explicar muito bem, pelo menos a uma criança de 8 anos, partiste-me o coração. E porque é que ele morreu se cantava tão bem? E porque é que queimaram as coisas dele? Como se chamava a doença que ele tinha?


Tu dizes que todos nós temos a Amália na voz, mas na minha voz não é a Amália que canta. És tu. Tu foste a minha primeira discografia completa. Um presente de aniversário dos meus pais em formato LP que me acompanhou por toda a adolescência e que está ali arrumada e estimada no móvel. Ia crescendo contigo e descobrindo novas camadas nas tuas letras. Novos tons na tua voz. Consolos cúmplices nas emoções que fui conhecendo.


E o que me chateia ouvir dizer que se tu não tivesses morrido tinhas sido uma grande cena. Tu és uma grande cena. Tu és a cena e o cenário. Tu criaste a tua obra completa.
E o que me chateia ouvir dizer que tu eras um grande maluco. Tu que tinhas uma cabeça sã e sabias bem o que querias. Querias encontrar a tua forma e o teu lugar.


Por estas coisas, meu querido António, já não te sintonizo no carro do meu pai. Levo antes as tuas músicas na cabeça ou na pen nas viagens que faço na vida. Levo-te nos phones por esta Lisboa onde te tornaste um astro e onde morreste na noite de 13 de Junho de 1984. A noite do outro António da cidade.

domingo, 7 de junho de 2015

Carta aberta.




Sr. Carlos, Sr. Domingos e todos os outros senhores que todos os dias me querem comprar o carro,


Espero que esta que vos remeto vos vá encontrar bem.
Escrevo-vos para vos agradecer o interesse demonstrado na aquisição da minha viatura. O esmero com que colocam diariamente o vosso panfleto no meu limpa-pára-brisas comove-me.  Admiro a resiliência do ser humano e gosto sempre de a encorajar, por isso me é tão difícil redigir esta carta. É que pressinto que aquilo que vos vou dizer poderá partir-vos o coração e desmotivar a vossa caminhada rumo à aquisição de todos os automóveis de Lisboa. No entanto, o que tem que ser dito tem que ser dito. Cá vai:


EU NÃO VENDO.


Mas não pensem que esta missiva é de despeito. É sempre um prazer diário ir tirar o panfleto do vidro do carro. Principalmente naqueles dias em que chove muito e, já ilegível e empapado, me fica agarrado às pontas dos dedos. Ou quando me esqueço e passado um dia ele está colado e difícil de retirar.
A verdade é que, às vezes até dão jeito. Quando, por falta de caixote do lixo onde os depositar, os acumulo no porta-luvas. Tê-los ali à mão de semear se precisar de apontar alguma coisa é muito bom. No entanto, o que tem que ser dito tem que ser dito. Cá vai:


NÃO PONHAM MAIS PORQUE EU NÃO VENDO.


E sensibiliza-me que vocês estejam dispostos a ligar-me se eu vos der um toque. Que vão ao local buscar com reboque e assinem um termo de responsabilidade no acto de compra. Que paguem na hora e tratem de toda a documentação. E fico com uma lágrima a querer verter-se sempre que leio a frase motivacional que o Sr. Domingos lavra entre parênteses: Feliz é o homem que confia em Deus. E eu fico logo mais confiante e penso que no dia seguinte não vou ter lá o vosso papelinho. Mas não tenho fé suficiente. No dia seguinte lá está ele à minha espera. Houve um dia até que tinha dois. Um de cada lado do pára-brisas. Enternecedor. No entanto, o que tem que ser dito tem que ser dito. Cá vai:


NÃO PONHAM MAIS PORQUE EU NÃO VENDO.


Desistam. A compra do meu carro foi ponderada. Pensei muito, fiz contas, pesquisei e analisei durante cerca de meia-hora. E correu muito bem. Estou mesmo satisfeita. Não avaria, a Câmara Municipal de Lisboa ainda não o tentou recolher e tenho pago a prestação todos os meses. Por isso, é com pesar que vos informo que não contem comigo para a vossa demanda para comprar todos os popós da capital. Peguem nos vossos folhetos e enfiem-nos noutro vidro porque EU NÃO VENDO.


Cumprimentos,


Couve-Flor.

domingo, 31 de maio de 2015

Há caracóis.




Chegaram os caracóis. As portas dos restaurantes e tascas vão exibindo sacos de rede amarelos cheios do bicharoco pendurados à entrada. São letreiros vivos do petisco mais aguardado do tempo quente.


Na minha Beira Alta a malta não acha piada nenhuma. Fala-se em caracóis e as línguas soltam-se para fora da boca em sinal de agonia. Segue-se um sonoro “Que nojo.” e um abanar de cabeça de incompreensão. Quando telefono à minha mãe e digo que vou comer caracóis, nota-se sempre no “Que porcaria” que deixa escapar, um tom de voz conformado seguido de um suspiro à andamos a criar uma filha para acabar nisto.


Mas em Lisboa não. O caracol caiu no gosto do lisboeta. O Verão da capital não começa antes do molusco cá chegar. E se eles se atrasam, estica-se o Inverno mais um bocadinho. É impensável deixar o calor entrar na cidade sem que em cada montra das casas de comes e bebes alfacinhas haja um anúncio simples e directo: há caracóis.


E é ver as travessas e os pires a chegarem às mesas das esplanadas. Com o aroma de orégãos e cebola não há alfacinha que não comece a salivar. E é ver as mesas cheias de cascas e guardanapos enrodilhados. E é ver as imperiais a chegarem e a esvaziarem-se em segundos. E é ver o pão torrado com manteiga a chegar quentinho e a ser devorado.


E é ver quem é que é esquisito e quem é que é corajoso. Os corajosos chupam o caracol directamente da concha. Os esquisitos puxam com um palito, às vezes fazem uma careta de náusea, mas comem na mesma. É que o sabor delicioso do caracol é diametralmente oposto ao seu aspecto.


A caracolada é sempre acompanhada com boa disposição. Nunca vi ninguém com ar pesaroso atacar um pires de caracóis. Os amigos juntam-se à volta do pitéu e só falam de assuntos divertidos. O caracol não é para coisas sérias. É para boas conversas regadas com cerveja e contentamento.

Chegaram os caracóis. É altura do tremoço e o amendoim descansarem. É altura de deixar o calor entrar nos nossos dias. Telefonar aos amigos e dizer: Vai uma caracolada?

domingo, 24 de maio de 2015

As canções de Lisboa.


Nem só com fado se canta Lisboa. Lisboa canta-se de outras cantigas tristes e contagiadas de solidão que, sabe-se lá porquê, nos enchem a alma de calor e companhia. Quanto mais oiço cantigas sobre esta cidade mais se me forma uma certeza certa: sobre Lisboa não se cantam felicidades.


Sobre Lisboa cantam-se paisagens e angústias, vai-se ao bas fond do espírito e do corpo, esperam-se futuros desgraçados, desencontram-se os corações e cortam-se pulsos com navalhas. Enganam-se os amantes, desvendam-se segredos assombrados, ou então guardam-se para sempre.


Não vão em cantigas. Sempre que se canta Lisboa, cantam-se lágrimas.


E poderão estas cantigas ser de prescrição médica para curar corações partidos? Poderão os afastamentos que carregam socorrer as almas aflitas? Poderá esta cidade ser tão ardilosa amada que nos fere e nós, mesmo assim, só a queremos a ela por par? A resposta é óbvia. Sim. A Lisboa que se canta é criatura empática que nos espeta uma faca, mas fá-lo com jeitinho. Depois pega-nos ao colo e dá um beijinho na ferida para passar mais depressa. E a verdade é que ajuda. A Lisboa que se canta é boa companhia para a solidão. Para o abandono da carne vazia. Para os acordares estremunhados espreitando pela fresta até ser dia.


Na próxima sexta-feira vai acontecer um concerto daqueles dos meus sonhos. No Auditório Olga Cadaval em Sintra o Jorge Palma e o Sérgio Godinho vão cantar juntos. E eu vou estar lá com as letras a fazerem comichão na ponta da língua e o coração a bater ao ritmo das melodias. E quero que eles cantem todas. Que se aguentem ali no palco até que as vozes se esgotem e as cordas das guitarras se gastem.


Mas isto é pedir demais. Então façamos um ponto e escolhamos um assunto: Lisboa.

“Lisboa que amanhece” e “A canção de Lisboa” são gémeas falsas. Cantigas de solidão e tristeza, que nos golpeiam o coração e o acalentam ao mesmo tempo. Cantigas mais vadias que o fado. Cantigas com personagens solitárias e noctívagas que, quando o dia acorda, se misturam na multidão tendo a cidade como única companhia. Das tais cantigas que o médico devia prescrever. Porque os seus autores, alquimistas de palavras e melodias, as compuseram para nos fazer sentir que temos sempre Lisboa por companhia.


Por isso, se não tocarem mais nada, que toquem estas duas. Estas duas cantigas que tão bem relatam Lisboa. Que nos cantam ao ouvido a essência lisboeta. Que nos matam e que nos ressuscitam. Estas duas que ecoam uma cidade inteira.