domingo, 30 de janeiro de 2022

Parabéns.


 

Fez há dias 20 anos que vim trabalhar para a Penha de França. Moro do outro lado da cidade, mas este também é o meu bairro. Vejamos. Não consigo sair a porta do emprego sem cumprimentar alguém na rua, sei o nome de vários cães, é cá o meu mecânico, compro fruta na Cristina, jogo no Euromilhões na papelaria da esquina, vi negócios a nascer e a morrer, vi figuras emblemáticas a desaparecer e frequento diariamente o Olha que Dois.

Já escrevi antes sobre o Olha que Dois. É o meu café da manhã. Meu e dos meus colegas. Todas as manhãs dividimo-nos em vários grupos de companheiros de bica e rumamos para lá. O primeiro grupo passa a palavra aos restantes: hoje há sonhos, para o almoço têm polvo à portuguesa ou, quando alguém não pode ir, trazes-me um pãozinho com queijo do Olha que Dois? Houve uma altura em que fecharam para obras em que andámos à toa pelos outros cafés como se não tivéssemos um sítio onde pousar.

O Olha que Dois é uma instituição. Acolhe os velhotes do bairro como se fosse um centro de dia. Mas daqueles onde há mesmo alegria e carinho. Não há senhora mais velha que não tenha uma queda pelo Paulo, que as trata a todas por namoradas.

Os clientes conhecem-se e saúdam-se como velhos amigos. Como não? Há anos que somos fiéis e coincidentes naquelas mesas e naquele balcão.

Durante os confinamentos, nos dias em que não estávamos em teletrabalho, entregavam-nos a comida quentinha no escritório à hora marcada e até levavam o multibanco. Nunca fecharam nem despediram os funcionários.

Sabem de cor o que vamos pedir e como gostamos da nossa bica. Nunca franzem o sobrolho aos caprichos gustativos de cada um. E nunca nos impingem nada. Se é só o café, é só o café.

São gente de bem, que não negam comida a quem sabem que não a pode pagar. Empregados e patrões confundem-se numa espécie de família que nos recebe com paciência, café e gargalhadas.

Na altura do Natal vão levar ao meu local de trabalho bolos-reis gigantes e vinho do Porto. Como se o agradecimento tivesse que ser deles. A nós, clientes satisfeitos, sempre apressados e primorosamente atendidos.

Nos dias frios de Inverno ou quando estou mais triste, tudo melhora quando entro e aqueço com um sorriso. Ao longo dos anos, alguns destes sorrisos mudaram e outros permaneceram. O Sr. Delfim (que foi um dos proprietários), o Ariel (para sempre um bom amigo), os dois Carlos, já não estão lá, mas são sempre boas memórias. Nos dias que correm, temos a boa disposição do Marcos, do Marlon e da Sónia, os pratos saborosos da D. Edna e, acima de tudo, a atenção e alegria do Paulo, o proprietário que mantém sempre o barco à tona passem as ondas que passarem.

Correndo o risco de me tornar repetitiva, volto a escrever o mesmo que há dez anos: o Olha que Dois é o meu café das manhãs. Faz parte do meu dia. Se não for lá, a minha rotina laboral, desestabiliza. Sou como qualquer habitante desta cidade, que a meio da manhã tem uma chávena de café quentinho à sua espera em cima do balcão do sitio do costume. Daquele sitio onde, quando não têm troco para a nota de vinte euros, nos dizem com toda a confiança: “Deixe estar, paga amanhã”.

Hoje o Olha que Dois faz 20 anos. Venham, pelo menos, outros tantos.

domingo, 3 de dezembro de 2017

Zé Pedro.

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Desde quinta-feira que os meus olhos humedecem cada vez que me lembro que morreste.

Tu és o co-autor de uma grande parte da banda sonora da minha geração. Vejo-te sempre em cima de um palco, sorridente e com a guitarra descaída quase até aos joelhos, todo estiloso. Uma verdadeira estrela rock.

Não há como negar que o rock aprendeu a falar Português ao cantar as letras da tua banda. Não há ninguém neste país que não saiba de cor um refrão dos Xutos.

E mesmo quem não gostava de Xutos gostava dos Xutos e em especial de ti. O porreiríssimo Zé Pedro.

Por isso, aqui estamos nós chorando esta espécie estranha de orfandade a que a tua partida nos atirou.

Sem Zé Pedro já não há Xutos a soar a Xutos.
Como será daqui para a frente sem ti no palco à direita do Tim?

Ficamos com uma herança preciosa. Com uma sensação heróica de todos sermos tema das músicas dos Xutos. Curvamo-nos perante essa vossa fórmula secreta que transforma as inquietações do português comum em letra de canção.


Ficamos com o teu sorriso honesto e com a tua simpatia gravados nos nossos álbuns de memórias. Agradecidos pelo som da tua guitarra nos ter amparado bebedeiras, choradeiras, pequenas revoluções e grandes decisões. Com os braços cruzados no ar.

domingo, 9 de julho de 2017

O concerto.




Nos anos 90 a música chegava à minha aldeia pela rádio ou por cassetes gravadas de cassetes gravadas que uns primos traziam de Madrid. Depois, se gostávamos mesmo muito, encomendávamos o LP na Discoteca Ferrão em Viseu, que havia de demorar quase um mês a chegar. Concertos de bandas estrangeiras eram miragens maravilhosas gravadas em VHS. Com sorte, os pais deixavam-nos ir ver os Xutos ao Day After ou os GNR à Feira de São Mateus.

Até vir estudar para Lisboa, sobram dedos numa mão se me puser a contar as vezes que cá vim. Era longe, não tinha cá família, o Porto ali tão à mão para ir à Zara e aos Porfírios. Não havia motivos para vir cá. Por isso, quando soube que a minha banda favorita vinha a Alvalade tocar, foi a medo e com descrença que perguntei aos meus pais: “Podiam levar-me a Lisboa ao concerto em Julho?”.

E não é que eles disseram que sim? Foi um dos momentos de melhor memória da minha adolescência. Começaram nesse dia uma série de preparativos complicados. Comprar o bilhete? “Telefonas ao Miguel que já lá está a estudar e ele que compre. E que compre também para ele, para não ires sozinha. Nós pagamos.” Tenho a certeza que foi nesse momento, depois da longa adolescência em que questionamos os nossos sentimentos pelos pais, que voltei a gostar deles.

Chegou o dia 11 de Julho de 1993 e muitas horas antes do concerto, já estava com o Miguel a caminho do Estádio de Alvalade. Eu estava nervosa. Com borboletas a voarem na minha barriga. Lisboa era uma cidade estranha. Muita gente. Muita gente com roupas esquisitas que passavam por mim sem me ver. Gente que não dava as boas tardes e que comia em andamento. Que andava pela rua com walkmans nos ouvidos e que lia nos transportes públicos.

Horas de espera com a cabeça ao sol em Alvalade. Bebemos umas cervejas e comemos o farnel que eu levava na mochila. Naquela altura só não podíamos entrar com fruta. Comprei uma T-shirt que vesti logo. Aguentámos heroicamente uma primeira parte da qual não tenho imagens guardadas em mim. E, por volta das dez da noite, houve missa solene no estádio. Pelo menos para mim. O concerto foi como uma cerimónia religiosa onde descobri que afinal havia muitos mais fiéis a comungar e a rezar o mesmo credo. Ainda soam em mim ecos das músicas que ouvi naquela noite.

Claro está que passei o resto do Verão a chatear toda a gente com a conversa do concerto. Claro está que levava a T-shirt com vaidade para todo o lado. Desconfio que houve uma altura em que a minha mãe até a escondeu. Para não passar vergonhas em eventos mais sérios.

Passaram 24 anos. Ontem fui vê-los outra vez ao Alive. Músicas novas. Músicas antigas. O brilho não foi o mesmo. Nunca mais foi. Só temos direito a um primeiro concerto na vida. Já não levei a T-shirt nem fiquei nervosa. Já os vi tantas vezes que perdi a conta. Como poderia eu ter sonhado aos 17 anos que um dia iria com tanta calma ao concerto.


No entanto, há ainda uma menina dentro de mim que sabe as letras todas de cor. Que sabe as pausas e adivinha ao primeiro acorde a música que se segue. Que não quer que ninguém fale com ela durante o concerto. Que quer beber as canções em tragos lentos e bem saboreados. E que fica grata aos pais por, mais uma vez, lhe terem oferecido o bilhete para ir ver os Depeche Mode.

domingo, 4 de junho de 2017

Entre lençóis.



Lisboa, cidade coscuvilheira, gosta de saber das vidas de quem nela pernoita. Mesmo que só por umas horas, gosta de saber detalhes desses tais turistas que agora chegam aos molhos enfeitiçados pela sua formosura. Todas as manhãs entra nos quartos, examina os lençóis e tira as suas conclusões. Cada muda de roupa conta pelo menos uma história.

As camas abertas com as roupas para trás, revelam posições de corpos que ali estiveram em repouso. Se dormiram enroscados ou separados. Se dormiram serenos ou alvoroçados. Se dormiram. E presumem-se partes de vidas. Casamentos vencidos pelo peso dos anos ou empolgados pela frescura do começo. Amizades castas, sonhos de irmãos, crianças veladas pelas mães no seu dormir inquieto e intermitente.

As camas abertas e as janelas ainda fechadas expõem cheiros de sonos profundos, adormecidos pelo álcool ou por soníferos, pela tranquilidade de espírito ou pela fadiga. Noites de má-vida que terminam num vómito na hora de deitar. Perfumes que sobraram no corpo e mergulham no colchão. Suores quentes e frios que amargam o ar. E supõem-se aventuras antes do sono. Jantares entre amigos que terminaram aos ziguezagues pelas ruas de Lisboa. Corpos a dançar até o sol nascer. Perfumes que não seduziram ninguém.

As camas abertas à pressa ou devagar destapam gestos matinais bruscos ou calmos. Aviões quase perdidos, reuniões que se atrasam, encontros que nunca vão acontecer. Nas mesas-de-cabeceira esquecem-se rosas com promessas, copos de água bebidos até meio, embalagens de comprimidos vazias e roupa interior tirada com urgência. Rituais matutinos ou corridas matinais prevalecem no espaço como se as pessoas ainda ali estivessem.


Mudam as mudas de roupa com os turistas. Vão para as lavandarias para branquear a altas temperaturas e serem passadas por ferros pesados. Novos corpos deixam novas marcas e Lisboa baralha-se com tantas biografias. Lisboa ilude-se com tantas aparências. Tantas singularidades que parecem mas não são. Mas o algodão dos lençóis, companheiro de cada noite e que tudo presencia, há-de guardar cada segredo até à última noite que aconchegar. 

domingo, 21 de maio de 2017

Ralé alfacinha.



Há cá pela capital uma subespécie de alfacinhas que são mesmo a ralé da ralé. Pessoas sem maneiras, egocêntricas que não ligam nenhuma ao bem-estar do próximo, enfim, uma gentalha tão reles que não há quem a ature. Chamam-se vizinhos de cima e são das figuras mais odiosas da capital. Pelo menos é o que consta por aí. Não há vizinho de baixo que não se queixe do energúmeno do gajo do andar de cima que passa os seus dias a planear a melhor maneira de lhe fazer a vida negra. É que os vizinhos de cima não têm nada para fazer na vida e preenchem o vazio dos seus dias a arquitectar planos para tirar o descanso à vítima que mora justamente por baixo deles.

E pode parecer que estou a exagerar, mas não estou. Tenho-me dedicado a ouvir queixas de vizinhos de baixo e, depois de me multiplicar em análises e cálculos rigorosos, cheguei à conclusão de que há três modelos de comportamentos típicos dessa cambada que mora em andares acima do rés-do-chão. A saber:

Arrastam os móveis a meio da noite. É uma das actividades mais comuns. Olham para a cristaleira mais pesada que tiverem lá em casa, lá para as 11 horas da noite, e descobrem que onde ela ficava bem era na outra ponta da sala. Toca então de a arrastar lenta e sonoramente pelo soalho. E que não me venham dizer que aquilo era a cadeira e que foi uma distracção quando se levantaram, porque é impossível. Com esta estrutura sólida que as casas de tabique têm, uma cadeira não se ouvia.

Atiram com objectos ao chão e depositam nesse acto todas as suas forças. Ele é copos e pratos, pisa-papéis e ferros de engomar. Pilhas de livros que desmoronam ao pontapé, bibelots em voo picado até se esbarrarem no soalho e caixas de tralha que colidem estrondosamente nas tábuas de madeira. Já se sabe que nada disto é acidental. Tudo planeado para atormentar o infeliz que mora por baixo.

Calçam sapatos de salto agulha só para andar por casa. É que é todas as manhãs a mesma coisa. Ao lado da cama têm o tapete e os sapatinhos de salto nos quais metem os pezinhos mal se levantam e só tiram quando entram na banheira. Andam de um lado para o outro de casa a martelar com força o chão. Às vezes vão aos pulos para a cozinha tomar o pequeno-almoço. E correm pela casa como se estivessem com pressa. Pressa é coisa que gente como esta, que não faz mais nada que não seja perturbar o pobre que mora no andar de baixo, não tem.

Há ainda a assinalar as televisões aos berros, a roupa estendida a pingar na varanda de baixo, as discussões infernais como não se ouvem em mais casa nenhuma, o cão que ladra toda a noite e a máquina da roupa a lavar a altas horas. Uma série de comportamentos imperdoáveis que só pessoas desta estirpe é que têm.  
                                                                              

Felizmente que em Lisboa são poucos. Numa cidade onde mora tanta gente, seria um drama se só existissem vizinhos de cima. Afortunadamente há muitos vizinhos com quem podemos partilhar este sentimento que só quem habita no andar posterior é que entende. Eu, por exemplo, gosto imenso do meu vizinho de baixo. Um sujeito muito discreto. Sempre que passa por mim nas escadas até finge que não me vê. Não levo aquilo a peito. De certeza que não é nada pessoal. 

domingo, 2 de abril de 2017

Peixinhos da Horta.




Lisboeta que é lisboeta péla-se por um peixinho fritinho com um arrozinho malandrinho. Assim tudo em diminutivos. Quanto mais pequenininho melhor. Daqueles peixinhos que não chegam para tapar a cova de um dente. Com nomes dados por meninos que aprenderam a falar há pouco tempo. Ele é pilim, jaquinzinho, petinga, carapauzinho e no limite dos limites, quase com o diagnóstico de gigantismo, pescadinhas de rabo na boca.

Comem-se de meia dentada, com cabeça e espinha incluídas e acompanham com um arroz de tomate, de feijão ou de grelos, imperativamente a correr pelo caldo. Uma taça de vinho e está feito um dos repastos mais tradicionais da cidade.

Porém, estes lisboetas são uns criativos, e, há uns séculos, quando o peixe não era para qualquer mesa, magicaram uma alternativa mais em conta que se tornou num emblema da culinária alfacinha. Chamam-lhe peixinhos da horta. Eu, que só os provei quando cá cheguei, chamo-lhes um figo sempre que os apanho em alguma ementa.

De acordo com os Doze Meses de Cozinha, uma das bíblias culinárias que há na estante da minha mãe, os peixinhos da horta são dois feijões-verdes fritos envoltos num polme de farinha, gema de ovo, claras em castelo, sal e pimenta. Lembro-me de ser miúda e folhear aquelas páginas de papel de boa gramagem e fotografias apetitosas e pensar que um dia faria aqueles tais de peixinhos da horta. Coisa que ainda não aconteceu.

E se aquele chavão que parafraseamos do Camões dizendo que Portugal deu novos mundos ao mundo é verdadeiro, também é incontestável que levámos novos sabores aos quatro cantos do planeta. Dizem por aí as más-línguas, atestadas pela boa boca de Maria de Lourdes Modesto, que no século XVI, quando chegaram os primeiros Jesuítas portugueses ao Japão, encontraram um povo que não percebia nada de fritos. Quando chegou a Quaresma, os missionários respeitaram o período de abstinência de carne e lá fritaram uns jaquinzinhos e uns peixinhos da horta que deram a provar aos japoneses. E não é que eles gostaram?

O sucesso foi tal que dali se originou um dos pratos japoneses mais comidos no mundo. A tempura come-se hoje em todo o lado. O nome vem da expressão latina que designa a Quaresma, ad tempora quadragesimae, que os portugueses naquela época tinham simplificado para Têmporas. E se os japoneses diversificaram a utilização do polme delicioso em vários outros alimentos, a verdade é que nunca fazem tempura com carne.


Cá por Lisboa ovo e farinha só se põem à volta do peixe. Não há cá experiências com cenouras, pimentos ou com essas temíveis couves-flor. Refeição que é refeição dá aos vegetais o papel secundário e deixa brilhar o peixe. Nem que seja peixinho da horta.

domingo, 12 de março de 2017

O banco.

Ao fundo da Calçada de São Vicente, ali à porta de entrada de Alfama para quem vem da Graça, na rua, do lado de fora do passeio, há um banco de madeira corrida. O banco é comprido, bem aconchegadas cabem lá sentadas umas cinco pessoas de cada vez. Está preso com corrente e aloquete a um dos pilaretes do passeio, não vá por ali passar alguém que o cobice e não resista a levá-lo consigo. O seu posicionamento foi decidido de acordo com leis complexas da geometria. Encostado ao passeio o suficiente para os usufrutuários apoiarem as costas nas barras do pilarete e com espaço bastante para se estenderem as pernas à vontade. Para que, quando o eléctrico 28 passar, se fique à distância de um palmo.

E se os objectos tiverem alma e coração, naquele banco bate um coração verde-alfacinha e na alma está empedernido o fado mais castiço de Lisboa. Ali assentam arraiais as vidas do bairro desde que a manhã nasce. E será já noite profunda e de horas impróprias quando voltar a ficar sozinho com ar de abandonado na calçada.

De manhã chega a senhora que mora na casa de trás. Roupa preta. Cabelos brancos. Por ali se põe a deitar escadinhas de conversa aos moradores que passam. Bons dias para ali, despacha-te que já deram as nove para acolá. Todos respondem. Alguns ficam. Outra senhora senta-se só um bocadinho que daqui a nada tenho que ir comprar umas costeletas ao talho para o almoço que hoje tenho cá a minha neta e a gente para a gente ainda se poupa, mas para os miúdos não pode dar uma carne qualquer.

Perto da hora de almoço já se acumulam no banco umas três senhoras e um senhor. Conversas de diz que diz que ouviu dizer. Que aquela ali de cima tem a filha de volta a casa. Como é que aquela gente cabe lá toda sabe Deus. Que cada vez que o genro lhe dá uma tareia ela volta com os filhos para casa da mãe. Depois lá volta para ele até à próxima malha. É uma vida de tristeza. E a que mora ali em cima é que é burra, que se fosse cá comigo a coisa era diferente. Mas cada um é como cada qual e quem sabe do convento é quem mora lá dentro.

Mal o relógio da Igreja de São Vicente dá o meio-dia, pontualmente adiantado cinco minutos, é a debandada geral. O banco fica só ali no meio da rua. Quem por ali passe e não conheça os hábitos do bairro, até há-de olhar com um certo espanto para ele. Curioso da sua finalidade.

Mas mal o horário do almoço passa e a tarde começa, inicia-se a dança dos assentos naquele banco geoestratégico. Dali se topam as saias curtas das meninas e se gozam as caras assustadas dos turistas no 28 quando saem das Escolas Gerais. Olha aquele pensava que o eléctrico não cabia na rua. Ali não faz o Medina um passeio largo. Obras aqui, nem vê-las. Querem tudo very typical para o turista. Bela desculpa. E qualquer dia temos que ir todos aprender línguas. Ainda há bocado passaram aí uns que deviam ser alemães, mas como a gente não entende o que eles dizem, não os pude ajudar.

As conversas cruzam as pessoas. As pessoas cruzam as conversas. Diálogos infinitos em que os interlocutores se vão revezando. Às vezes sai alguém do banco para ir fazer um recado e quando volta o assunto ainda é o mesmo.

Quando a noite cai a frequência muda. Por ali demoram-se namoricos e cigarros solitários. Os adolescentes do bairro param a ver as turistas bonitinhas dentro do 28. E já tarde e a más horas há-de vir alguém pedir amparo na volta da tasca.


Um assento na via pública. Podem as paredes de Alfama estar cheias de palavras de ordem contra o Airbnb e os turistas. Pode o fado estar quase a ter versões em Inglês para os Camones entenderem que saudade não é só nostalgia. Pode o 28 ser um carrossel. Mas este banco por ali fica a marcar lugar para essa Lisboa que é alfacinha e que só fala em Português.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

O tal elevador.

Quando eu era pequena e passava as tardes de domingo em casa da minha avó materna, enquanto os homens da família se encaixavam no sofá da sala a ver as horas infinitas que duravam os grandes prémios de Formula 1, eu preferia sentar-me num dos bancos da cozinha ao pé dela. Ela começava cedo a preparar os seus deleitosos jantares e eu, ainda sem primos nem irmã, ali ficava a fazer-lhe companhia. Talvez para me distrair, talvez para reviver, relatava-me momentos da sua juventude que a minha imaginação transformava em imagens e que ficaram comigo até hoje.

A minha avó só veio a Lisboa uma vez na vida. Presumo que numa espécie de lua-de-mel com o meu avô, que por cá trabalhara e conhecia bem a cidade. Ele levou-a a vários sítios. Ela contou-me várias vezes a sua vinda à capital, as coisas estranhas que viu e os sítios por onde andou. Não ficou com boa opinião. Mais tarde, quando vim estudar para cá comentava muitas vezes porque é que eu ia lá para tão longe. Isso e para eu não adormecer no comboio para não me roubarem a mala.

Dos relatos das suas aventuras em Lisboa, a imagem mais forte que guardo é de ela a entrar num compartimento pequenino de madeira com o meu avô. E de ela apanhar o susto da sua vida quando o compartimento começou a mexer-se. E de me contar que, quando a porta se abriu, estava num sítio muito alto. E de nem sequer ter vontade de ver as vistas por tal sobressalto lhe ter causado o movimento inesperado. Um sítio do qual ela não me disse o nome porque não se lembrava.

Passados muitos anos, vim para cá estudar. Sôfrega de conhecer a cidade nova, fui a todos os sítios onde o L123 me transportou. De autocarro, comboio, barco, eléctrico e elevador. Quando passei a porta do elevador de Santa Justa e me vi num compartimento de madeira a imagem da infância tornou-se concreta. Ali era o lugar que afligira a minha avó.

Sorrio sempre ao colosso de ferro quando lá passo. Para mim não interessa a vista assombrosa lá de cima. Que se veja a Baixa na sua geometria pombalina, o Tejo a fazer alongamentos até à outra banda, o Castelo, o Rossio e as pessoas minúsculas a formigar lá em baixo. Que seja a obra-prima daquele senhor que é resposta para queijinho no Trivial, o Raoul Mesnier de Ponsard, que tenha mais de cem anos. Que seja mesmo muito bonito na sua pompa de ferro fundido e filigrana, e imponente nos seus 45 metros de altura. Que seja classificado como Monumento Nacional à vontade. Para mim será sempre a imagem da minha avó em Lisboa.


Agora que o mundo descobriu Lisboa e que o Elevador parece a Mona Lisa no Louvre, que é impossível olhá-lo sem as filas que vão quase até à Rua Augusta, que é um bom negócio para a Carris e que é difícil não sermos enquadrados na foto de um turista asiático quando por ali passamos, vou contendo sempre uma vontade de segredar aos ouvidos dos que estão à espera cheios de entusiasmo e expectativa para a subida “A minha avó detestou.”

domingo, 22 de janeiro de 2017

O flagelo.



Lisboa é cidade de temperatura amena e sol brilhante. Aqui o Inverno é mesmo para meninos e gorros e luvas são adereços de moda e não necessidades básicas. Os lisboetas são piegas com o frio. Mal as temperaturas baixam para perto dos 10 graus, enfiam os lençóis térmicos nas camas e competem entre si para ver quem tem os pés mais congelados.

Quando cá cheguei há 23 anos, passei Invernos dos infernos. Nas ruas cheias de alfacinhas enchouriçados de camisolões e casacões, lá andava eu, vestida como eles e a morrer de calor. Um dia, farta de andar sempre vermelhusca e a suar as estopinhas, resolvi assumir. Não tenho frio. Nesta cidade nunca fiquei com os pés gelados e os casacões com os camisolões fazem-me sentir febril. Nunca me hão-de apanhar com uma camisolinha polar nem com fatiotas de neve. Pelo menos aqui em Lisboa.
Porém, não foi fácil viver com a decisão. Desde então uma enxurrada de frases, daquelas candidatas a clássicas das nossas vidas, tem inundado os meus meses entre finais de Novembro e princípios de Março.
 Não tens frio? Queres que te empreste mais um casaquinho? Tu até me causas arrepios. Olha que isso não é normal, devias ir ao médico. Deves estar gelada. Podes desligar o ar frio do carro?

Por isso, quando avisaram que vinham aí dias de frio polar na capital, fiz o meu sorriso de desdém costumeiro e saí à rua como sempre. Devo aqui rezar um acto de contrição. A verdade é que fez frio. E quem ficou arrepiada ao ver um turista de calções fui eu. Lá mergulhei no fundo do armário à procura de uma camisola grossa e daquele cachecol fofinho que a minha mãe me fez.
E se eu me agasalhei, os alfacinhas embrulharam-se. Foi ver os casacos de pele e os gorros gigantes a desfilarem pelas avenidas. Circularam na Baixa pessoas calafetadas e almofadadas. Pareceu-me ver um sujeito abraçado a uma botija de água quente na Rua Augusta. Todos prontinhos para o briol que desceu sobre a cidade durante dois dias. Aqueles dois dias em que o meu frigorífico teve temperaturas mais elevadas do que as da rua.

E ao olhar para os viajantes dessa Europa fora a passearem à beira do Tejo como se fosse Primavera, vi nos rostos deles uma expressão muito familiar. Um brilhozinho de troça nos olhares de esguelha. Aquele ar que fazemos no Verão quando passam por nós a escamar as suas peles de lagosta depois de dois dias a apanhar o nosso sol.


É nestes dias, em que está cá um griso que não se pode, que eu constato que somos um dos países de maior fortuna do mundo. Podemos não ter assento na reunião do G7 e andar com frequência a contar os tostões, mas um país cuja capital fica razoavelmente ridícula vestida de roupas de Inverno é um país milionário.

domingo, 15 de janeiro de 2017

A Lei dos Quatro Piscas.

Artigo 63.º do Código da Estrada
Sinalização de perigo

1 - Quando o veículo represente um perigo especial para os outros utentes da via devem ser utilizadas as luzes avisadoras de perigo.
 2 - Os condutores devem também utilizar as luzes referidas no número anterior em caso de súbita redução da velocidade provocada por obstáculo imprevisto ou por condições meteorológicas ou ambientais especiais.
3 - Os condutores devem ainda utilizar as luzes referidas no n.º 1, desde que estas se encontrem em condições de funcionamento:
a) Em caso de imobilização forçada do veículo por acidente ou avaria, sempre que o mesmo represente um perigo para os demais utentes da via;
b) Quando o veículo esteja a ser rebocado.
 4 - Nos casos previstos no número anterior, se não for possível a utilização das luzes avisadoras de perigo, devem ser utilizadas as luzes de presença, se estas se encontrarem em condições de funcionamento.
 5 - Quem infringir o disposto nos números anteriores é sancionado com coima de (euro) 60 a (euro) 300.

O artigo anterior aplica-se em todo o território nacional, com excepção da região de Lisboa, em cuja legislação em vigor se designa por “Lei dos Quatro Piscas”
Ora experimentem circular apenas um dia pelas ruas e avenidas desta linda capital e verão como interiorizam a Lei dos Quatro Piscas num piscar de olhos. Poderá parecer-vos que estão a fazer os 10 000 metros com barreiras, mas não terão direito a medalha olímpica no final.

Mal tentamos sair do lugar de estacionamento surge a primeira barreira. Uma viatura parada em segunda fila bloqueia a nossa saída. Estamos em cima da hora para chegar com pontualidade ao trabalho, os segundos são preciosos, uma irritaçãozinha sobe à nossa cabeça, prontos a buzinar desmedidamente e a verbalizar as nossas bem-humoradas emoções matinais quando finalmente prestamos atenção. Espera aí, este sujeito tem os quatro piscas ligado. Está com toda a legitimidade a impedir a passagem.

Dez minutos depois já vamos em velocidade de cruzeiro pela cidade quando numa rua estreita de um só sentido o automobilista que segue à nossa frente interrompe a sua marcha. Era o que faltava agora, este chico-esperto pára assim sem mais nem porquê. Baixamos o vidro para lhe dizer das boas. Espera, ligou os quatro piscas. Estávamos já prontos a exagerar e o senhor está dentro da lei. Vai apenas descarregar as três cadeiras, os quatro caixotes e o arranjo floral que traz na bagageira. Está com toda a legitimidade a impedir a passagem.

Quinze minutos passados, chegamos por fim ao primeiro cruzamento e pretendemos virar à esquerda. Se ao menos conseguíssemos ver se vem algum carro da direita. Mas esta carrinha aqui estacionada, mesmo a tapar-nos a visibilidade e a sujeitar-nos a levar com um carro em cima, está convenientemente a assinalar a licitude da sua paragem com os quatro piscas. Vamos mesmo ter que arriscar. O que não é tarefa fácil, pois está outro veículo aqui encostado à esquerda que dificulta a viragem. Mas, como está com os quatro piscas devidamente ligados, temos que aceitar.

Em frente à escola, numa rua com dois sentidos, só dá para circular numa direcção de cada vez. Tudo porque de cada um dos lados, uma belíssima fila de carros estacionados com as rodas da direita em cima dos passeios iluminam a rua com os seus quatro piscas como se estivessem em festa. São estes postais inesperados que nos fazem adorar esta Lisboa sempre bonita. Ainda bem que temos que ficar aqui parados uns bons dez minutos para poder apreciar este deslumbre luminoso enquanto os paizinhos abrem a porta, entregam a lancheira, ajeitam o casaco e fazem uma festinha na cabeça aos meninos de 15 anos. Esta coisa das leis faz sempre sentido.

E lá chegamos ao trabalho com uns meros quinze minutos de atraso. Entretanto parámos ou arriscámos a chapa do nosso carrinho mais seis vezes. Porém, dura lex sed lex.
Os quatro piscas funcionam como a ferramenta legitimadora de qualquer paragem em qualquer lugar à escolha, são o “é tudo nosso” da circulação rodoviária alfacinha e são as luzes que mais me ofuscam a racionalidade. Quem nunca ficou com o rosto iluminado de fúria perante aquelas piscadelas irritantes, nunca conduziu em Lisboa.  
Um dia destes ligo os quatro piscas em andamento por estas colinas fora. Só para causar ataques de nervos aos alfacinhas na expectativa de verem se eu paro ou não.

A ver se gostam.

domingo, 18 de dezembro de 2016

Palavras alfacinhas de 2016.

O final do ano é a época tradicional das listas. Listas de prendas, listas de convidados para jantares de Natal, listas de promessas que não se vão cumprir no ano seguinte. Inventários que resultam do somatório do que vivemos no ano anterior e da esperança que depositamos no ano novo.
Olhamos também para o ano a terminar e fazemos catálogos dos melhores, dos piores ou dos mais memoráveis casos. Os Top 10 de cada um traduzem-se em livros, álbuns, acontecimentos, personalidades e outras infinitas possibilidades de listas.
Lisboa também tem apetecíveis hipóteses de cardápios e é custoso escolher um ponto de partida. Como na lista das minhas coisas favoritas estão as palavras, escolhi apresentar aqui aquelas que, para mim, foram as mais faladas em 2016 na capital.

Turistas
Palavra incontornável. Ou por que se adoram. Ou porque se odeiam. Não há como se lhes escapar. Os monumentos da cidade passaram a ser aquelas imagens de postal que vislumbramos por trás de grupos de pessoas de línguas diversas, sapatos confortáveis, máquinas fotográficas ou mapas em punho. Por causa deles alguns bairros da cidade renasceram dos escombros. Por causa deles sentimos que estamos em casa sempre a receber visitas. Dizem que são demais, que a cidade se transforma num parque de diversões, mas que Lisboa está mais confiante, está.

Obras
Não há lisboeta que não esteja a ficar doidinho com as obras. Passeios mais largos, ciclovias, árvores nas avenidas são miragens com que nos acenam para irmos aguentando sem fazermos uma birra colectiva com todos os pés alfacinhas a baterem no chão no tom de quem não aguenta mais. Todos queremos ver a cidade a brilhar de modernidade e as obras com os seus desvios, buracos, andaimes, barulhos, filas, atrasos e taipais, são parte do processo. Mas tinham que ser todas ao mesmo tempo?

Verão
Foi ou não foi o mais espectacular de sempre? Chegámos a acreditar que o Inverno tinha sido abolido perpetuamente e que nunca mais os lençóis de flanela sairiam das gavetas. Andámos de manga curta até Novembro e ainda ostentamos as marcas dos fatos-de-banho no corpo. As temperaturas altas bateram recordes e acumulámos vitamina D suficiente para várias vidas.

Golo

No dia 10 de Julho aos 109 minutos da final do Campeonato Europeu de Futebol todas as gargantas alfacinhas disseram a mesma palavra em uníssono: Golo. Ou mais ou menos em uníssono, porque o sinal de televisão chega a ter um minuto de desfasamento de um lado da rua para o outro. Mas a verdade é que, se tivessem ensaiado não saía tão bem. Depois da palavra Golo associaram-se as palavras Portugal e Campeões por vários dias e à volta do mundo. Mas o que me causa arrepios é pensar no país todo a cantar o Golo a uma só voz.


E depois há aquelas palavras que são de todos os anos como

Feliz Natal.


PS- Que as vossas listas de promessas e desejos se tornem realidades em 2017.

domingo, 11 de dezembro de 2016

Poderosa oração matinal para enfrentar o trânsito de Lisboa.


São Cristovão,
Padroeiro dos motoristas e viajantes,
Santa Engrácia,
Decana das obras da cidade,
Rogai por mim.
Peço-vos a vossa abençoada protecção para o caminho que em breve farei até ao trabalho.

Rogo-vos para que me dêem presença de espírito para só pecar por pensamentos na senda que vou trilhar.
Que eu não tropece em nenhuma canalização a céu aberto ou caia em algum novo buraco não sinalizado.
Que abençoeis o meu carro para que o encontre sem grades móveis ou pinos de trânsito à sua volta como aconteceu ontem e antontem. E na semana passada.
Que o camião betoneira que bloqueia a rua demore menos de dez minutos a desviar-se para eu passar. Se não for pedir muito, que ele vá betonar para outra rua mais larga.
Que liberteis o percurso de barreiras, de pinos e de novos desvios. Que a seguir a um semáforo verde não esteja um polícia a mandar parar para as máquinas fazerem manobras ou uma grua ser instalada.
Que não fique parada na subida da Calçada do Moinho de Vento por causa de uma camioneta a descarregar andaimes. Evitando assim que o meu arranque espalhe um suave perfume a embraiagem na manhã nevoenta da cidade.
Rogo-vos para que me deis a clarividência de evitar a Frente Ribeirinha, o Largo do Conde-Barão, o Largo da Graça, a Avenida da República e que não seja apanhada desprevenida por um novo estaleiro.
Suplico aqui de joelhos para que o lugar onde estaciono perto do trabalho, não me reserve a surpresa de estar ocupado por um contentor das obras ou ter sido transformado em passeio de ontem para hoje.
Imploro para que logo ao final do dia, quando sair cansada do trabalho, me concedam a graça de demorar menos de uma hora e meia a ir da Penha de França às Amoreiras alcançando assim a glória de chegar a horas às últimas aulas do ginásio.

E depois de tudo isto, quando regressar a casa ansiando por um prato de comida quente e pelo aconchego do sofá, que não fique sem gasolina quando andar às voltas durante uma hora à procura de um lugar para estacionar por entre as barreiras, os montes de terra e o camião betoneira que no dia seguinte me dará os bons dias lentamente.


Ámen.

domingo, 20 de novembro de 2016

Rua do Monte Olivete.

A rua de que hoje escrevo não tem grandiosos monumentos nem movimento notável. Não sei dela histórias de tragédias, nem de amores ou de algum rei que ali tenha sido deposto. É só uma artéria que sai do meu coração e oxigena o meu amor por esta cidade. Sempre que passo, enche-se-me a alma de poemas que não se transformam em palavras. Sempre que passo, atraso o passo para afinar o ritmo da cidade à minha pulsação. Chama-se Rua do Monte Olivete e fica ali perto da Praça do Príncipe Real.

Ao cimo a Rua da Escola Politécnica, membro da mais alta realeza dos arruamentos lisboetas, exibe-se em lojas hipster e gente bem trajada. Ao fundo o Largo Agostinho da Silva, silencioso e com os bancos de jardim sempre vazios.

Vindo do lado da Praça das Flores, a Rua Monte Olivete é uma subida íngreme e quase ingrata, não fora o fôlego constante que cada passo em esforço nos traz ao olhar. Passeios estreitos onde não cabem namorados de mãos dadas e onde os saltos das senhoras não se equilibram bem, sobem ao lado de fileiras de prédios construídos depois do terramoto. Cada edifício um tom alfacinha. Do verde desbotado pela meteorologia ao azul vivo dos azulejos, do rosa apagado ao amarelo Carris, a paleta cromática da cidade está espelhada nas fachadas.

As casas com as portas de madeira e a numeração suspensa nas ombreiras de pedra recolhem o sol matutino com ansiedade. A luz boa só bate ali algumas horas. Da Escola Politécnica chegam os ruídos dos automóveis que passam incessantes. Mas ali os sons são baixos, como se passássemos numa aldeia à hora da sesta. Ouve-se cada passo nos passeios de calçada branca ou no empedrado negro da estrada.

Não fosse eu ter lá morado e talvez nunca tivesse reparado nela. O quanto eu gostei de ali viver não se explica lá muito bem. De me instalar na janela das traseiras e ficar a ver anoitecer nos pátios que se escondem por trás de cada casa. De ouvir os cânticos da antiga Sinagoga de Lisboa ali ao lado. Da velhinha que morava ao cimo da rua e me dava fatias de bolo porque sabia que eu sou do Benfica. De comprar maçãs na mercearia da esquina e de tentar sacar uma palavra simpática ao vendedor que nunca sorria.

Na rua que é um poema moraram poetas. Gosto de acreditar que o Alexandre O’Neill escreveu Um Adeus Português quando ali morou, mesmo que a cronologia não o confirme. Invento-o a olhar pela vidraça num dia cinzento meditando no “modo funcionário de viver”. Consigo ver o António Tabucchi a abrir a janela de casa e a ler um romance inteiro.

Se há rua de onde tenho saudades de viver é da Monte Olivete. Daquela formosura lisboeta em cada vista. Daquela alegria serena cravada em cada portada antiga. De imaginar que vivia dentro de um livro escrito só com palavras bonitas.


domingo, 6 de novembro de 2016

Do Outono em Lisboa.


Tenho os casacos, sobretudos, cachecóis e luvas numa fila histérica à porta do guarda-vestidos a suplicarem todas as manhãs para os levar à rua. As botas atravessam-se-me ao caminho como num filme de terror, ameaçando biqueiradas se eu não as calçar. As flores da varanda voltaram a nascer. Convencidas que mudaram para um país tropical, é vê-las a abrir as pétalas delicadas ao sol matinal.

A verdade é que o frio parece estar em greve este ano. Lisboa continua solarenga e pouco vestida. De tal maneira que o homem das castanhas do Chiado parece que chegou antes do tempo. A temporada das fotos de praia nas redes sociais ainda não encerrou e no primeiro dia de Novembro, o dos santos todos, os cemitérios estavam cheios de gente de guarda-chuva aberto para não apanharem uma insolação.

Todos os anos, quando o Outono entra oficialmente nas nossas vidas, ficamos espantados por estar ainda tanto sol e calor. Esquecidos do ano anterior em que fomos à praia no 5 de Outubro, criticamos o aquecimento global sentados na esplanada à beira do Tejo a beber uma imperial fresquinha que está uma canícula que não é nada normal para esta altura. Porém este ano há uma legítima razão para alvoroço sobre a meteorologia. Se até aqui as conversas sobre o tempo serviam para preencher espaços de encontros pouco íntimos, agora são motivos de telefonemas para as nossas mães.

E é tão bom andar pelas ruas de Lisboa sem agasalhos. Sair de manhã e ter a coragem de não levar um casaco dependurado no braço. Ver o sol a afagar os prédios pombalinos e deixá-lo animar os nossos termostatos emocionais que já estavam preparadinhos para a época melancólica do cair da folha. Perguntar aos estrangeiros quantos graus estão na terra deles e fazer um sorriso condescendente. Por este andar no Verão de São Martinho a Protecção Civil vai decretar alerta vermelho por ondas de calor na capital.

Por estes motivos, declaro o Outono de 2016, o melhor Outono de sempre. O ano em que as galochas vão deixar de estar na moda, as sarjetas não vão entupir, a água não vai inundar a Baixa e chegaremos ao Natal bronzeados. Ou talvez esteja a exagerar.

Por outro lado declaro o Outono de 2016 o pior Outono de sempre. Onde andarão a tombar as folhas ocres? Quando poderei começar a deixar entrar a saudade do Verão dentro da minha corrente sanguínea? Preciso de molhar os sapatos numa poça de água, de usar a manta do sofá, de aquecer as mãos com um cartucho de castanhas e que o vento me torça as varetas do guarda-chuva.


Por muito que me agrade o clima ameno, se for para continuar, em breve sofrerei de nostalgias de céus cinzentos sobre o Arco da Rua Augusta, de chuvas miudinhas no Tejo e de vento fresco na cara. Que a Lisboa do Outono também é bonita. Ganha a inquietação da tristeza com que se escrevem poemas. O que me dá a convicção de que foi nesta altura do ano que inventaram a palavra saudade.

domingo, 23 de outubro de 2016

Martim Moniz


Corria o ano de 1137, ainda Portugal não era Portugal, quando D. Afonso Henriques veio do Porto para conquistar al-Ushbuna, mais conhecida nos tempos que correm por Lisboa, aos sarracenos e espalhar a cristandade. O intento ficou-se por umas cócegas nas muralhas do castelo, tendo que voltar para trás com as suas tropas.
Em 1140, aproveitando a boleia de Cruzados que passavam pelo Condado Portucalense, volta a descer com as lanças levantadas sobre a cidade. Novo fiasco o faz voltar para Norte de cabeça baixa.
Porém, D. Afonso Henriques, que nem com a mãe se deitava a perder, não descansou enquanto não voltou. Em Junho de 1147, já soberano de Portugal, cercou a cidade. Com a ajuda de Cruzados a quem o Papa dissera que conquistar a Ibéria era uma causa tão devota como conquistar a Terra Santa, assentou acampamento à volta do castelo que ainda não era de São Jorge. E por ali ficaram durante alguns meses fazendo investidas sobre a fortaleza. Ora escavavam tuneis, ora projectavam pedras durante horas a fio e até construíram uma torre móvel para encostarem à muralha. Porém os mouros resistiam e o castelo continuava com as portas bem fechadas a cristãos.

Entre os homens de D. Afonso Henriques, havia um tal de Martim Moniz de bravo e valente afamado que era casado, diziam as más-línguas, com uma filha ilegítima do rei. Diziam também que nada temia e que a sua espada cortara já muitas cabeças mouras. No dia 21 de Outubro, cumprindo a rotina, avançaram sobre a fortificação. Martim Moniz e os companheiros investiam contra uma das portas. E naquele dia de prodígio a porta cedeu e abriu o suficiente para um ombro a penetrar. Era pois o ombro de Martim Moniz que afoito avançava e forçava a porta a franquear. Tarefa de força feroz, mas à qual o guerreiro deu o corpo. E atravessando-se sem pestanejar no vão, não permitiu que a porta se voltasse a fechar. Puderam os seus companheiros entrar no castelo e reconquistar Lisboa para graça divina.

E o pobre do Martim Moniz cedeu o corpo e a alma ao manifesto e morreu entalado na porta do castelo. Ganha a cidade, logo D. Afonso Henriques mandou colocar uma cabeça em mármore, réplica perfeita do herói, sobre a porta que foi sua carrasca e chamá-la de Porta do Moniz.

Deram-lhe nomes de ruas e de praça. A Praça do Martim Moniz está na zona de Lisboa onde hoje as várias religiões dos alfacinhas mais se cruzam e misturam em paz. Muitos historiadores afirmam ser só uma lenda. Em cartas escritas por cruzados que ajudaram na conquista da cidade, não há referência à entaladela extraordinária.


Todavia eu acredito. Vislumbro nesta história um momento decisivo para a definição da identidade nacional. O que se augura para um país onde um dos heróis subiu ao pedestal por ficar entalado? Martim Moniz iniciou uma ampla tradição de entaladelas. Em nome de fés, descobertas, territórios, mercados e outras mui nobres causas o português lá vai ficando espremido.  E isto só prova que somos um povo de valentes e que dentro de cada um de nós reverbera o espírito do Martim Moniz que nos faz continuar e acreditar que um dia chegará em que todas as portas se vão escancarar.

domingo, 16 de outubro de 2016

O Camões.


Os pontos de encontro são sempre pontos de partida. O sítio onde coincidimos com alguém num tempo certo para depois seguirmos juntos, ou separados, um destino porventura definido. Todas as cidades têm um ponto de encontro. Todas as cidades têm um ponto de partida que começa num ponto de encontro. Lisboa não escapa à regra.

O Camões é o ponto dos encontros de Lisboa. Ali, onde o Bairro Alto arranca para subir a colina, onde o Chiado começa a sua descida até à Baixa, onde a Rua do Loreto avança sobre o Combro e a Rua do Alecrim flutua até ao rio, cruzam-se os destinos que dali continuam para novas aventuras. O Camões é o ponto de partida de Lisboa. Quem nunca marcou encontro ali para depois ir jantar ao Bairro, desfilar na Rua Garrett ou ir beber um copo à Bica que atire a primeira pedra.

O Camões é o único nome da toponímia lisboeta a que, sendo uma praça, todos chamam largo. Quase ninguém vai à Praça de Luiz Vaz de Camões. Agora, o Largo do Camões já todos atravessam. Ou por lá se encontram. É que assentar praça é diferente de passar ao largo. E ir chatear o Camões todos vamos de vez em quando, mas não por muito tempo. Que por norma no Camões não se está. Espera-se. Espera-se pelo amigo, pelo 28, pela sineta do pastel de nata da Manteigaria. Fazem-se horas para estar noutro sítio ali por perto, sentados na esplanada do Quiosque do Refresco com uma amêndoa amarga pingada de limão.

Boas esperas que alcançam o ritmo da cidade. O eléctrico 28 a circundar a linda plataforma de calçada portuguesa. A estátua de Luiz de Camões com pombas a revezarem poleiro na sua cabeça para espreitarem quem vem do Chiado. Os alunos de Erasmus a conviverem à volta do pedestal. A passadeira mais insubordinada de Lisboa em que os carros e os peões têm um acordo secreto para ignorar o semáforo. A conduta de ar que faz os vestidos das meninas esvoaçarem e os cabelos perderem a compostura. Os prédios com as fachadas limpinhas e gente lá dentro. Os encontros e as partidas. Cada metro quadrado, um postal. Cada transeunte, um poema.

A Praça de Luiz Vaz de Camões foi inaugurada como tal em 9 de Outubro de 1867. A estátua e o pedestal do poeta têm 7 metros e meio, são da autoria de Victor Bastos e foram custeadas por subscrição pública. Nesse dia, toda a Lisboa foi ali dar. Até os trabalhadores das fábricas da capital tiveram folga para ir ver El-Rei D. Luís descerrar o pano que cobria a grande figura de bronze.


Desde então o poeta da nação tem visto lá de cima a cidade a mudar. Mudam as modas e os costumes. Mudam os transportes, os sons, o comércio e os cheiros. Chegam os turistas e partem os habitantes. Mas Lisboa, que da lei da morte já se libertou há muito tempo, continua circulando num vai e vem de gente que, mais tarde ou mais cedo, há-de ir ter à hora marcada ao Camões.

domingo, 9 de outubro de 2016

Maternidade.

Nos tempos do Bilhete de Identidade, mais de meio milhão de portugueses tinham anotado, no campo correspondente à naturalidade, Lisboa, São Sebastião da Pedreira. Os tempos são outros e o Cartão de Cidadão não é dado a romantismo. Até a freguesia já mudou de nome em 2013. Agora tem o nome fino de Avenidas Novas. Os anos passam e mudam os decretos que ajustam as coisas, mas a Maternidade Alfredo da Costa, segue sendo o berço da naturalidade alfacinha.

Inaugurada em 31 de Maio de 1932, abriu ao público no dia 5 de Dezembro do mesmo ano. Três dias depois nasceu o primeiro bebé. Era uma obra moderna com lotação de 300 camas. Logo se tornou no modelo de cuidados obstetrícios e neonatais em Portugal. Mas, acima de tudo, permitiu que mulheres de todos os contextos económicos tivessem finalmente acesso a partos em boas condições médicas e com higiene e conforto dignas. Até então, as parturientes pobres de Lisboa estavam confinadas a uma ala escura e bafienta com equipamentos velhos e danificados, no Hospital Real de São José.

Esta obra foi desejada e reivindicada por um médico que morreu 22 anos antes da sua abertura. Manuel Vicente Alfredo da Costa, nascido em Goa no ano de 1859, veio cedo para a metrópole para estudar Medicina. Aluno extraordinário, médico notável, foi sempre muito interventivo na sociedade científica da sua época. Estudos como “A protecção às mulheres grávidas pobres” ou “Maternidade ou a antecâmara de um inferno feminino?” são a evidência da sua inquietação com a maternidade no séc. XIX e da sua demanda para edificar um espaço que lhe fosse exclusivamente dedicado. Alfredo da Costa morreu aos 51 anos. Uns meses depois, a monarquia seguia o mesmo destino.

Quis a sorte e a fé da Marquesa de Carnide que esta doasse no fim do séc. XIX um terreno ali para as bandas de São Sebastião da Pedreira para que fosse erigida uma igreja em homenagem à Nossa Senhora da Conceição. Logo após a revolução republicana, os terrenos foram confiscados pelo Estado e em 1914, foi ali iniciada a construção da maternidade. Com algumas dificuldades orçamentais, resolvidas por uma doação de 1500 contos cuja origem nunca foi conhecida, a maternidade foi construída. O nome não poderia homenagear outro que não fosse Alfredo da Costa.

A Maternidade Alfredo da Costa, instituição sagrada da capital, teve ordem de encerramento pelo governo anterior. Mas o lisboeta, que não leva a bem leis desalmadas e desprovidas de razão, saiu à rua e apelou à providência, cautelar neste caso, para que tal desaire não ocorresse. E conseguiu. Em Janeiro deste ano, sem oposição do governo actual, foi decidida a sua manutenção. Estão até previstas obras de melhoramento.


Eu, que não sou de cá, também devo favores à Alfredo da Costa. É que nasceram ali alguns dos alfacinhas da minha vida. E que piada que eu lhes acho quando dizem com vaidade onde nasceram. Como se pertencessem a uma casta especial. Essa casta que não veio de Paris no bico de uma cegonha, mas ali da horta mais famosa de Lisboa.

domingo, 2 de outubro de 2016

Aldina


Ao balcão de um café ali na Lapa pouso o livro da Noemi Jaffe e peço uma bica. Tenho pressa.
Entras. Ficas ao meu lado. A menos de um passo de distância. Pedes qualquer coisa que eu não entendo.
Talvez não sejas tu. Assim de lado não consigo ver muito bem. Quase arranjo um problema de vista assim a esforçar os olhos para o lado esquerdo da forma mais disfarçada que a anatomia me permite. Pareces mesmo tu.
A empregada do balcão lá da ponta diz em voz que se ouve bem: “Bom dia Dona Aldina.”
És tu.
Digo ou não digo?
De tanto olhar de lado já estás a olhar para mim também. Já deves estar habituada. As pessoas devem olhar constantemente. Como eu agora, a tentar ser discreta mas sem conseguir. Estás mesmo fixa em mim e devo já estar a incomodar-te. Agora tenho mesmo que dizer qualquer coisa. Tenho pressa. É agora ou vou-me embora.
Digo.
Eu, “Desculpe, estava a olhar para si. Estava a pensar se lhe diria ou não que é a minha fadista favorita.”
Ela, “Não. Eu é que estava a olhar para si. É que gosto tanto desse livro que aí tem. Até devia estar a incomodá-la.”

Tu a incomodar-me. Tu. Aldina Duarte, fado para os meus ouvidos.


Tu és a princesa do fado. Só porque a Amália é a rainha e esse posto está tomado até não restarem colinas em Lisboa. E que me perdoe a Hermínia, que tem a minha devoção, mas quem me dá de beber à dor és tu.


Tu és a fadista soberana. A tua voz tem textura de xailes negros e pronuncias as sílabas como se soubesses o capítulo de fonética e fonologia da gramática do Celso Cunha e do Lindley Cintra de memória. E cantas com a intenção do texto, como se te saísse por inspiração naquele momento e não fosse uma letra que conheces de cor. Mostras a alma sem cortinas e desconcertas-nos por parecer tão fácil. Genuína e crua, tens na voz os fadistas do passado, sem seres réplica de nenhum.

Tu és guardiã do fado. Preserva-lo, como valioso que é, sem precisares de roupagens inovadoras ou toques de modernidade. Escreves fados tão bonitos para ti e para outros e escolhes os que cantas com critérios de aço e poesia. O teu sorriso é tão aberto que te vemos o coração. E é certamente por isso que quando cantas “até o mal se enternece”.



Como é usual fazermos quando encontramos uma divindade na rua, não nos sai muito mais do que um És a minha favorita. A verdade é que gostava de te ter dito tudo isto. E de te fazer um aceno e no derradeiro momento levantar a voz e rematar com um Ah Fadista.

domingo, 10 de abril de 2016

O barco.


De todos os barcos que circulam no Tejo, o Cacilheiro é o que melhor lhe assenta.

O Tejo poderia ser outro rio qualquer não fossem as embarcações laranja e brancas com as bóias penduradas nos lados na sua incansável demanda de unirem as duas margens. Que os Cacilheiros já por lá andavam antes da Ponte 25 de Abril aparecer a dominar o horizonte.  Desde os primeiros anos do Século XX que são assíduos e quase sempre pontuais a cumprir a sua rota de um lado ao outro do Tejo.

O Cacilheiro, apesar de velhinho, não dá sinais de fadiga nem vacila a executar o seu ofício. Transporta diariamente milhares de pessoas. Venham ventos, tempestades e marés. Venham as ondas altas abaná-lo. Venham as Tágides embalá-lo com as suas cantigas. Venha a escuridão da noite, que o Cacilheiro há-de chegar ao Cais do Ginjal com todos os passageiros a salvo e regressar a Lisboa ao Cais das Colunas ou ao Cais do Sodré. É que não há mais marés que Cacilheiros.

E que bom que é, em dias de sol, ir ali ao cais apanhar o Cacilheiro só porque sim. Dar um pulinho à outra banda e ver Lisboa a crescer ainda mais grandiosa. Deitar os olhos à água e ela brilhar tanto que custa olhar. O rio passa a ser de prata quando a luz lhe toca. Ver o postal completo. O Terreiro do Paço, o Panteão e o Castelo. A Sé e a Igreja da Graça. A Ponte e Belém. Cabem todos numa só vista. O Cacilheiro é um miradouro.

Nas tardes preguiçosas e solarengas dos fins-de-semana, um passeio sobre o Tejo é um deslumbre para o olhar. Mas não para todos. Dentro do Cacilheiro o passageiro habitual mete a cabeça dentro do jornal, aproveita para ler o livro ou agarra-se ao telemóvel. A contrastar com o turista. Ai o turista. O turista vai de boca aberta e máquina fotográfica em punho. Ofuscados pela luz da cidade linda que se abre perante eles, soltam interjeições que soam bonito sobre o barulho de fundo do motor do barco. O turista vai em sentido perante a majestade da cidade debruçada sobre o rio.

No regresso, hão-de olhar para Lisboa outra vez. Mas se olharem para trás, verão que o outro lado também é fotogénico. O Cais do Ginjal degradado mas encantador e o Cristo-Rei a esbracejar no azul do céu. E até a grua da Lisnave fica ali tão bem a emoldurar Almada.


O Cacilheiro é um barco de luxo que Lisboa tem. De ar tosco e desajeitado, revela tesouros no seu percurso. Sobre ele se cantam fados e se escrevem poemas. Sobre ele se descobrem as feições da Lisboa iluminada pelo sol ou pela electricidade. E Lisboa agradece dando ordens ao Tejo para deixar o barquinho passar. E sempre que ele parte, pequeno mas valente sobre o rio grande, Lisboa fala baixinho da palavra saudade.

domingo, 13 de março de 2016

Escadas.

O morador de um prédio pombalino é um alfacinha esforçado. Todos os dias sobe e desce escadas para chegar ao seu lar. Quando o Marquês de Pombal mandou construir os edifícios que lhe imortalizam o nome, pensou no lisboeta como um valente alpinista. Os elevadores não estavam na moda na altura. Ora em madeira, ora em lioz, mais largas ou mais estreitas, as escadas são o lugar comum dos moradores. O espaço público dentro de casa.

De patamar em patamar revelam-se pequenos segredos das vidas quase privadas de quem os habita. Pela escadaria acima, escapam inconfidências. A vizinha do 1.º dto está sempre a ouvir a mesma música. Uma música triste. Deve andar deprimida. A do 2º esq.º já está a fazer o jantar. E como eu gosto de passar à porta dela a esta hora. A comida dela tem um cheiro quase igual ao da comida da minha avó. Se eu fechar os olhos volto atrás para um tempo em que os jantares de domingo eram à volta de uma mesa cheia de delícias dentro de uma casa onde agora não mora ninguém. No 3.º direito mora-se quase no silêncio. Quebrado às quartas-feiras pelo som do aspirador que a porta não veda. Já no 3º esquerdo, a televisão está sempre ligada a espalhar noticias e pela frincha da porta passa o cheiro dos cigarros que quem lá vive fuma ininterruptos.

Pelas escadas dos prédios ouvem-se pedidos de ajuda. Do gato que faz chantagem emocional do lado de dentro da porta porque não gosta de passar o dia sozinho. Do louco que passa o dia a dizer que o matam. Do casal que está na mesma discussão há trinta anos e não se lembra porque é que aquilo começou mas já não sabe viver de outra maneira.

Pelas escadas dos prédios cumprem-se rotinas. Do rapaz que desce apressado todas as manhãs e que sobe lentamente lá mais para o fim do dia. Da senhora dos perfumes adocicados e saltos agulha que passa devagarinho por cada degrau por volta da hora de almoço. Da Maria, com três anos, que vem todas as manhãs pela mão do pai para casa da avó que mora lá para o 4.º andar. Conta os degraus na subida. Ao fim do dia desce a cantar. Daquela visita tardia que vem todas as quintas-feiras ao 2º direito. Da louca que circula para cima e para baixo todas as noites.

Pelas escadas dos prédios fantasiam-se as vidas do lado de dentro das portas. Recolhem-se indícios pelos sons e pelos cheiros. Supõem-se humores pelos desenhos dos tapetes de entrada. Julgam-se desleixos pelo guarda-chuva esquecido no patamar há mais de um mês. Pequenos pedaços da vida dos vizinhos que, por muito que se cosam, deixam sempre buracos por preencher.